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Cavalo de Guerra

Luiz Zanin Oricchio

18 de janeiro de 2012 | 09h17

Alguns amigos me pedem para escrever algumas linhas sobre Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg. O filme tem também rendido polêmica na lista da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), entidade da qual faço parte. Uns gostam, outros não e o centro do debate repousa na questão: o filme emociona ou é simplesmente piegas? Difícil decidir, não é? Como eu não tenho a verdade, nem ando em tratativas com essa senhora, limito-me a dizer como o filme me bateu.

Cavalo de Guerra tem seus momentos de bom cinema. E mesmo de grande cinema. Por exemplo, a fuga do cavalo Joey através das trincheiras. É de arrepiar, seja ela digital ou não. Tanto que a música de John Williams não precisaria ficar sublinhando a ação todo o tempo. Mas ela, a música, faz parte do “dispositivo” spielberguiano.

Aliás, a música over de JW é o que o filme tem de pior, a meu ver. JW embebe o filme num líquido amniótico de pieguice, do princípio ao fim. É como se impusesse ao espectador uma ordem: Emocione-se!

A história pode se resumir no seguinte: como um menino e seu bichinho de estimação, separados pela vida, farão para se reunir no final. É pífio. Mas toca uma estrutura inconsciente interessante: nada menos do que a recuperação (impossível) da infância, com seus sentimentos supostamente puros. O filme nos conduz a esse engano. Mas gostamos de ser enganados.

Em Cavalo de Guerra Spielberg mostra e reafirma como tem gosto pelos clichês. Não desperdiça um. Não nos poupa de todos os lugares comuns acumulados em cento e tantos anos de história do cinema. Com direito a final com pôr do sol na contraluz e…música de JW. Uma proeza.

Curioso: mesmo sendo uma fábula infantil (pode ser visto assim) é um filme que se afirma com o registro realista. No entanto, faz com que todos alemães e todos franceses falem inglês com os respectivos sotaques, mesmo quando conversam entre si. Estranho, para dizer o mínimo, mas compreensível do ponto de vista mercadológico.

Isso tudo quer dizer que não nos emocionamos com Cavalo de Guerra? Bem, no caso a resposta é pessoal. Eu, quando sinto que estão querendo me manipular de maneira grosseira, costumo ficar gélido. Mesmo assim, há momentos que tocam. Por quê? Porque o filme é uma homenagem “fordiana” como se tem dito? Não creio. Acho que a razão é outra, se me permitem os leitores e colegas.

Arrisco-me a dizer que todos nós, por maduros que sejamos, guardamos um quê de infantil em nossa personalidade. É esse núcleo, irredutível à maturidade, acrítico e piegas ele também, que Steven Spielberg tenta tocar. Nisso, é um mestre.

Mas temos o direito de saber de que maneira ele opera para fazê-lo. Senão, para que a crítica?

 

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