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Cavaleiro Solitário e Homem de Aço: sobram grana e ação, faltam ideias e imaginação

Luiz Zanin Oricchio

12 de julho de 2013 | 11h08

A história é contada por um velho índio, Tonto, sobre os bastidores que transformaram o homem da lei, John Reid, em uma lenda do Oeste.

No filme de Gore Verbinski o que importa é mais uma tentativa de revitalização de um gênero que marcou época no cinema norte-americano e criou sua própria mitologia nas mãos de Ford, Hawks, Sturges e outros. O western, o grande mito fundador da nação norte-americana, conforme muito bem definiu o crítico francês André Bazin em ensaio famoso.

Acontece que também certas mitologia são datadas. Podem ressurgir, às vezes com grandeza efêmera, sob a forma crepuscular, como em Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Ou ressurgir sob a capa da paródia, como neste Cavaleiro Solitário.

Aqui, a paródia surge sob a figura de John Depp e sua veia cômica e levemente autoirônica. Depp é, na verdade, o que o filme tem de melhor. À sua maneira, consegue funcionar no mais banal dos blockbusters rindo de si mesmo (e embolsando cachês milionários, claro) e transmitindo a mensagem subliminar que nada daquilo é para ser levado muito a sério. Uma espécie de caras e bocas exercida com muito talento, como seu Jack Sparrow na franquia Piratas do Caribe.

Desse modo, Depp retoma a tradição de humor presente em muitos westerns (sempre há humor em Ford, por exemplo), mas não apenas com o fito de aliviar a tensão, mas de colocar em crise a própria narrativa. É quando, por exemplo, Reid (Armie Hammer), é escolhido pelo próprio cavalo branco de Tonto para ser o guerreiro eleito. A cena é engraçada.

Há outras assim e que poderiam ter feito de O Cavaleiro Solitário um filme mais agradável de ver, não fosse a tendência dos estúdios de empanturrar de ação todos os seus produtos. Em meio à ação excessiva (que, pelo próprio excesso, anula seus efeitos), as boas ideias se diluem. Tudo o que é muito cansa, diz a sabedoria popular. E, como os filmes de grandes orçamentos se transformaram em montanhas-russas, não se vê qual possa ser o limite da adrenalina almejada no público. Sempre se aspira ao mais, como se a acumulação de efeitos especiais fosse inelástica e, por isso, consumisse a si mesma. É, digamos, o limite dialético dos atuais blockbusters. Mas, como eles são medidos por cifras na bilheteria e não por propostas estéticas ou de qualquer outra ordem, ninguém se preocupa. Pelo menos enquanto estiverem dando dinheiro.

Aliás, esse fenômeno da falta de ideias e da sobrecarga de efeitos especiais afeta ainda mais o outro blockbuster que também entra em cartaz – O Homem de Aço. Se Cavaleiro Solitário pelo menos tem humor, essa história dos primórdios do Super-Homem carrega o peso adicional da extrema seriedade. Com um núcleo mínimo de ideias, as grandes produções apostam todas as suas fichas na ação cada vez mais frenética e turbinada pelos efeitos especiais.

Falta de imaginação tamanha pode até enganar o público e alguns jornalistas, mas desperta preocupação na própria indústria. Recentemente a ex-executiva da Fox e da Paramount, Lynda Obst, discutiu em seu livro Sleepless in Hollywood os impasses dessa indústria que não acredita mais na criatividade e na imaginação. Até mesmo Spielberg e Lucas, responsáveis no final da década de 1970 pela reorientação de Hollywood na direção dos blockbusters, andam ressabiados. A seca de ideia é total e os roteiristas mais criativos migraram para as TVs a cabo.

Mas o dinheiro continua a entrar.

 

 

 

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