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Cassavetes fecha o close na crise dos casais

Luiz Zanin Oricchio

03 Março 2007 | 11h44

O CineSesc realizou um miniciclo John Cassavetes e agora os filmes vão entrando em cartaz um a um. Quer dizer, ofereceu uma panorâmica e agora permite que o foco se concentre em cada obra. Começou com Uma Mulher Sob Influência (1974) e agora é a vez de Faces (1968). A cronologia aqui não tem importância, mas são filmes estilisticamente diferentes, dispostos no interior de uma obra de grande coerência interna.

Cassavetes, ao contrário do que possa parecer para quem veja seus filmes de maneira superficial, tinha grande sentido de estrutura. Quer dizer, usando uma forma muito livre, o conjunto e o rigor interno não lhe escapavam. É um cinema que dialoga com a música, em especial com o jazz – e o tipo ideal desse tipo de filme seria o seu primeiro longa, Sombras (Shadows, 1960). Em Uma Mulher sob Influência existe uma prevalência maior do plot. Em Sombras, filme intermediário, temos tanto uma coisa como outra. Liberdade de improviso e estruturação em forma de narrativa.

Há uma característica nesse filme, e que diz respeito ao título. Faces: o filme quase inteiramente composto de closes, da exploração visual do rosto dos atores. Câmera próxima, preto-e-branco, as feições sem disfarce e sem ilusão. Há aí um trabalho que se deseja íntimo da psicologia dos personagens. Bergman também faz assim em Persona, embora com uma elaboração fotográfica ainda mais dramática (da autoria de Sven Nikvyst). Enfim, se Bergman parece querer ler a alma das personagens, Cassavetes se contenta em examinar seus dramas, desejos e indecisões. Nenhum dos dois é invasivo, no sentido convencional do termo.

Na célula mínima da armação da história, os impasses do relacionamento moderno, terreno favorito de Cassavetes. Richard (John Maley) e Maria (Lynn Carlin) estão casados há catorze anos, mas a união não vai bem. Uma certa noite cada um sai para um lado. Richard encontra uma bela prostituta (Gena Rowlands) enquanto Maria se reúne com amigas e elas acabam levando para casa um suposto garoto de programa (Seymour Cassel). Como em outros filmes de Cassavetes, neste também há esta longa noite de loucuras, com álcool, sexos, encontros e desencontros. O desejo nunca é neutro, ou satisfeito de forma integral, sem culpas ou ressentimentos. Não deixa de ser curioso que filme tão problemático e crítico tenha sido feito no auge da sexual revolution e mesmo no ano símbolo de 1968.

Mas é curioso também no cinema de John Cassavetes que essas neuras todas venham temperadas por um sensível senso de humor, uma ironia que permite ao espectador uma espécie de distanciamento em relação à obra. Distanciar-se, aqui, não quer dizer fuga ou alheamento em relação ao que o filme nos propõe como desafio ou inquietação. Pelo contrário. Apenas sinaliza que estamos diante de uma obra de arte, que se assume como tal, e não como pretenso simulacro da realidade. A obra fala de nós e para nós. Ao mesmo tempo dá testemunho sobre uma época.

E também uma classe social. Se em Uma Mulher sob Influência temos o universo proletário, aqui é de uma classe média folgada ou mesmo de uma classe economicamente superior que se está falando. O desejo e sua insatisfação são democráticos, supra-social, digamos.

Também há a questão do tempo. Cassavetes dá aos seus atores o tempo para que explorem seus papéis e ‘entrem’ nos personagens. Faces, como outros de seus filmes, é uma obra de pesquisa. Sente-se que existe um fio condutor, mas que o todo é construído durante a ação. Vai se trabalhando no tema, até que ele se revele consistente o suficiente para permanecer. Um cinema que se faz como se fosse uma pintura, talvez. Com a diferença de que resulta da interação de várias pessoas e não de uma apenas. O corte final ficou com 130 minutos. Mas Cassavetes tinha uma versão de seis horas que desejava a definitiva. Talvez fosse exaustiva.

(SERVIÇO)Faces (EUA/1968, 130 min.) – Drama. John Cassavetes. Cinesesc – 18h, 21h (2ª não haverá sessão). Cotação: Ótimo