Casanova: muito além de um sedutor
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Casanova: muito além de um sedutor

Luiz Zanin Oricchio

14 de junho de 2009 | 12h15

casanova

Muito além de um grande sedutor – esse subtítulo já mostra a que se propõe Ian Kelly em sua biografia de Giacomo Casanova. Kelly deseja mostrar que o veneziano, o mais perfeito símbolo do maratonismo sexual, tem muito mais a oferecer ao distinto público do que suas façanhas de alcova. Que nem foram tantas assim, constata, para decepção de alguns fãs do personagem. Kelly, que é ator, escritor e chef de cuisine autodidata, constata que o próprio Casanova ficaria pasmado se pudesse adivinhar que passaria à posteridade por sua trajetória sexual. Era muito mais que um vulgar colecionador de conquistas. Intelectual requintado e de saber enciclopédico, sabia música, dominava a literatura do seu tempo, exercitava-se na alquimia e na cabala, foi maçom, passou por médico e curandeiro espiritual. Escreveu 42 livros, traduziu a Ilíada de Homero do grego para o italiano e deixou um romance de ficção científica em cinco volumes. E, claro, já que ninguém é de ferro, dormiu com algumas das mulheres mais belas do seu tempo.

Casanova – Muito Além de um Grande Sedutor (tradução de Roberto Franco Valente) é uma biografia bem pensada e bem pesquisada, ainda que raramente recorra a fontes inéditas. A principal delas continua sendo a série de 12 volumes de A História da Minha Vida, memórias que um Casanova envelhecido escreveu, compulsivamente, em seu retiro no castelo de Dux, na Saxônia, onde terminou seus dias na condição de bibliotecário. O problema de Ian Kelly, como o de qualquer biógrafo, será confrontar o depoimento textual do biografado com documentos que o apoiem ou contradigam. Sabe perfeitamente que, quando alguém escreve sobre si mesmo em sua velhice, o faz tanto por amor à verdade como por desejo de construir uma posteridade a partir de um passado de glórias. Dessas linhas de força contraditórias tenta-se tirar uma média que aproxime a versão da verdade factual e sirva de acesso ao sentido de uma vida. Afinal, como dizia o contemporâneo e concidadão de Casanova, o dramaturgo Carlo Goldoni, “Todo homem é ao mesmo tempo três pessoas: como vê a si mesmo, com os outros o veem, e quem ele realmente é.”

A trajetória de Giacomo Casanova descrita no livro é a de um aventureiro. Filho de uma atriz conhecida, Zanetta Farussi, e, talvez, de Gaetano Casanova, Giacomo criou-se em sua Veneza natal. Mas desde que foi fazer seus estudos em Pádua tornou-se um desenraizado nato. Jovem, transformou-se em viajante obsessivo, nunca fixando residência na mesma cidade por muito tempo. Trocava de endereços como de amantes. Viajou por toda a Europa, morou em cidades como Londres, Paris, São Petersburgo, Berlim, Moscou, Dresden, Colônia, Metz, Spa, Liège, Constantinopla. Onde havia uma corte, e onde era possível encontrar um rabo de saia, ali Casanova se sentia em casa. Foi universal, cidadão do mundo e “europeu” muito antes que a União Europeia pudesse ao menos ser sonhada. Por isso mesmo, em 1998, nos 200 anos de sua morte, sua cidade natal o homenageou com vasta exposição no Palazzo Ca?Rezzonico, lembrando que, antes de tudo, Casanova fora um homem sem fronteiras, de mente aberta e civilizado. Um protótipo de europeu, ou pelo menos, de como os europeus gostam de se enxergar.

O fato é que o Casanova de Ian Kelly é mesmo descrito como espécie de precursor do homem moderno, um “arquétipo dos tempos atuais”, alguém liberado, sem pouso ou profissão permanente, sempre aberto a novas experiências. Entre essas, naturalmente, as sexuais, com muitas mulheres, alguns homens (em especial no seminário de Pádua onde estudou). E, pelo menos, um caso curioso: apaixonou-se por um castrato, mas veio a descobrir que se tratava, na verdade, de uma mulher disfarçada de homem para poder apresentar-se no palco, num tempo em que isso era malvisto em algumas sociedades europeias. O falso castrato era a cantora Teresa Landi, que Casanova apelidou de Bellino. Foi uma de suas grandes paixões. A outra foi Henriette, que ele amou por três meses, descritos em suas memórias como “os mais felizes de minha vida”.

Giacomo viveu a infância e adolescência numa sociedade mais liberal do que a média da época. Sua iniciação deu-se com duas irmãs, Nanetta e Marta, pioneiras na longa e fértil carreira sexual do personagem. Mas, a se acreditar em testemunhos, e em seu próprio relato, Casanova era um monógamo serial, que costumava se apaixonar por uma mulher a cada vez, e passando a outra quando a paixão anterior se esgotava. Assim, a se acreditar em sua memória e relato, seu currículo amoroso contabiliza pouco mais de uma centena de conquistas, 122 para ser exatos, número bem distante das 2 mil atribuídas a Dom Giovanni, personagem inspirado nele. Aliás, um dos momentos curiosos do livro refere-se à possível, aliás provável, colaboração de Casanova no libreto de Lorenzo da Ponte imortalizado na ópera de Mozart. Casanova parece ter sido mais do que um consultor, tendo escrito várias partes do libreto em conjunto com Da Ponte.

Ter dormido com centenas ou milhares de mulheres não faria de Casanova um personagem marcante. Mas ter escrito sobre essas experiências, e da maneira como o fez, sim. Como mostra Ian Kelly, o relato de Casanova, seu estilo e agudeza, tornou-se fonte preciosa de conhecimento sobre a sexualidade do século 18, a mentalidade do Ancien Régime e o comportamento de vários estratos da sociedade, e não apenas na alcova.

Doente, isolado e ridicularizado nos anos finais da vida, Casanova prescreveu a si mesmo o único medicamento possível – escrever. Ao morrer, em 1798, deixou uma impressionante papelada, inclusive as 4 mil páginas de A História da Minha Vida, em francês, que só começaram a ser publicadas em 1822. São páginas muito vibrantes, que dizem que a vida é curta, bela e é preciso aproveitá-la enquanto dura. Tudo é frágil, como sabem os venezianos com sua consciência ancestral de que o mar está sempre subindo: “O estilo dele é o de um homem em um banco de areia, rindo das marés”. Bonito, não?

Casanova – Muito Além de Um Grande Sedutor
Ian Kelly
Jorge Zahar, 370 págs., R$ 49

Trecho

No sentido clássico do século 18, ele é um pobre exemplo de libertino. Não era um Valmont ou um Sade. Casanova não era levado pela compulsão ou pelo vício sexual…Teve consciência, enquanto escrevia perto do fim da vida, que suas jornadas sentimentais, românticas e sexuais foram pelo menos tão aventurosas quanto suas viagens, e com frequência dirigiu sua pena para questões do coração e do sexo. De todos os aspectos sensoriais de seus escritos, foi o romance o que mais o divertiu, confundiu e enervou. Suas memórias tornam-se vivas quando ele trata de seu objeto favorito: o sexo. Para meros números, para a pornografia ou o avesso do bom gosto, deve-se procurar em outras bandas, em Sade ou nos infatigáveis lordes Lincoln e Byron. É a sua visão geral e sem julgamentos da vida e de sua época, do sexo inclusive, que o torna merecedor de estudos no que diz respeito à história da sexualidade. Sem desculpas ou rubores, ele situou suas aventuras sexuais e românticas no mesmo plano que toda a sua odisseia intelectual, profissional e geográfica. Foi o primeiro escritor moderno a fazer isso.

(Cultura, 14/6/09)

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