‘Casa’, filme sobre a relação entre mãe e filha, vence o Festival de Vitória
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‘Casa’, filme sobre a relação entre mãe e filha, vence o Festival de Vitória

Longa de Letícia Simões foi o último concorrente a se apresentar e acabou vencendo pela inventiva imersão memorialística da diretora em suas relações familiares

Luiz Zanin Oricchio

29 de setembro de 2019 | 23h27

 

O melhor filme do 26º Festival de Cinema de Vitória foi o documentário de Pernambuco “Casa”, de Letícia Simoes. O filme é uma imersão pessoal na árvore genealógica da diretora, com uma reconstrução interessante através de uma longa conversa com a mãe e a avó, tendo registros fotográficos como aide memóire. 

Após a lista completa de vencedores, reproduzo, de novo, a crítica ao filme que fiz quando o vi pela primeira vez, no Olhar de Cinema, de Curitiba. 

Depois faço um balanço mais geral desta edição do festival que teve, a meu ver, um marcado caráter político em defesa de pessoas negras, transgêneros e minorias. Ou seja, todas e todos que se sentem ameaçados e hostilizados pelo neofascismo à brasileira. Foi um festival da resistência. Um belo festival. 

VENCEDORES DO 26º FESTIVAL DE CINEMA DE VITÓRIA

 

MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE LONGAS

 

Melhor Filme – Casa, de Letícia Simões

 

Direção – Bertrand Lira, de O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira)

 

Interpretação – Marcélia Cartaxo por suas atuações em Pacarrete e O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira)

 

Roteiro – Bertrand Lira, por O seu amor de volta (Mesmo que ele não queira)

 

Contribuição Artística – Mirante, de Rodrigo John

 

Menção Honrosa para o ator William Muniz, pelo papel de Laura de Jezebel do filme O seu amor de volta (Mesmo que não queira) 

 

MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE CURTAS

 

Melhor Filme – NEGRUM3, de Diego Paulino

 

Melhor Filme Júri Popular – Sangro, de Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR

 

Direção – Diego Paulino, por Negrum3

 

Interpretação – Kauan Alvarenga, de O Órfão

 

Roteiro – Willian Alves e Zefel Coff, por A Praga do cinema Brasileiro

 

Contribuição Artística – Quando elas cantam, de Maria Fanchin

 

Prêmio Especial do Júri – Guaxuma, de Nara Normande

 

 

 

FESTIVALZINHO DE CINEMA DE VITÓRIA

 

Melhor Filme Júri Popular – Arani Tempo Furioso, de Robert Chay Domingues da Rocha

 

 

 

MOSTRA DO OUTRO LADO

 

Melhor Filme – Caranguejo Rei, de Enock Carvalho e Matheus Farias

 

Menção Honrosa – Carne infinita, de Isadora Cavalcanti

 

 

 

MOSTRA NACIONAL DE CINEMA AMBIENTAL

 

Melhor Filme – Ka’a zar ukyze wà – Os Donos da Floresta em Perigo, de Flay Guajajara, Edvan dos Santos Guajajara e Erivan Bone Guajajara

 

 

 

MOSTRA NACIONAL DE VIDEOCLIPES

 

Melhor Filme – Pedrinho (Tulipa Ruiz), de Fábio Lamounier, Pedro Henrique França e Rodrigo Ladeira

 

Menção Honrosa – Ok Ok Ok (Gilberto Gil), de Victor Hugo Fiuza

 

 

 

MOSTRA MULHERES NO CINEMA

 

Melhor Filme – Deus te dê boa sorte, de Jacqueline Farias

 

Menção Honrosa – Afeto, de Gabriela Gaia Meirelles e Tainá Medina

 

 

 

MOSTRA CINEMA E NEGRITUDE

 

Melhor Filme – Sem asas, de Renata Martins

 

Menção Honrosa – Motriz, de Tais Amordivino

 

 

 

MOSTRA OUTROS OLHARES

 

Melhor Filme – Do outro lado, de Bob Yang e Frederico Evaristo

 

Menção Honrosa – Kris Bronze, de Larry Machado

 

 

 

MOSTRA CORSÁRIA

 

Melhores Filmes:

 

A profundidade da areia, de Hugo Reis

 

Plano controle, de Juliana Antunes

 

 

 

MOSTRA FOCO CAPIXABA

 

Melhor Filme – Jardim secreto, de Shay Peled 

 

 

 

MOSTRA QUATRO ESTAÇÕES

 

Melhor Filme – Tea for two, de Julia Katharine

 

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Crítica de Casa, de Letícia Simões

 

A diretora Letícia Simões diz que “Casa” sempre foi o título de trabalho para seu filme. E terminou sendo o título definitivo.  Casa é mesmo o “tema” oculto nesse filme de procura, ou de reencontro, se se quiser, do seu lugar no mundo. Fala do relacionamento exasperado da diretora com sua própria mãe, com quem deseja se reencontrar. A mãe também mantém um problemático relacionamento com a sua própria mãe, a avó da diretora. 

 

Ou seja, são disfuncionalidades em cadeia, construídas de geração em geração. Nada de novo, em tese. Mas, convém lembrar Tolstoi, em Anna Karenina: “Todas as famílias felizes são iguais; as famílias infelizes o são cada qual à sua maneira.”

 

E, dessa maneira, articulando suas lembranças, da casa em Itaparica onde foi feliz, às fotos guardadas pela mãe como num relicário (os “arquivos implacáveis”), Letícia vai tecendo seu delicado rendado de relações familiares insondáveis e problemáticas. Como as de todos nós, mas com seus toques de singularidade: a árvore genealógica que se constrói com a antepassada escrava, o bisavô português, o cangaceiro egresso do bando de Lampião…Um mundo de machos, mas agora, no Brasil novo da quarta onda feminista, recentrado em figuras femininas. Passa por aí um pouco da genealogia complexa do povo brasileiro, heteróclito, violento, terno, e, não raro, negador de suas origens. 

 

Casa é um filme que dá muito mais do promete em seu início. Ao falar da singularidade de sua família, Letícia Simões faz com que nos lembremos da nossa própria, também complexa, contraditória, enredada, entretecida de ódios, rivalidades, ressentimentos e afetos. Contraditória configuração humana, a família, esta “viagem através da carne”, como dizia Carlos Drummond de Andrade. 

 

 

 

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