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Cartola revive

Luiz Zanin Oricchio

14 de abril de 2007 | 10h43

Se existe um filme que está dividindo opiniões, é Cartola, documentário de Lírio Ferreira & Hilton Lacerda. Parte da crítica amou; parte detestou. Colunistas que nem escrevem habitualmente sobre cinema sentiram-se motivados a se manifestar sobre o filme. Alguma coisa diferente ele deve ter. E tem.

Para desgosto de quem curte as cinebiografias mais didáticas, ‘Cartola’ não apresenta uma história linear do compositor de ‘As Rosas Não Falam’. De fato, quem não domina os rudimentos da existência de Angenor de Oliveira, que era o nome civil de Cartola, corre o risco de sair do cinema sem nenhum acréscimo de conhecimento aparente.

O que esse filme busca é outra coisa.Por isso, começa com o enterro do compositor e uma referência a ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, de Machado de Assis, e a seu “defunto autor”. Aquele que reinterpreta sua vida já tendo passado para “o outro lado do mistério”. Em seguida, vêm as imagens estranhas de um microfone passando entre os ossos de um esqueleto – e então o espectador teria de saber que se trata de ‘Brás Cubas’, de Julio Bressane, o primeiro a adaptar essa obra de Machado, em 1985. Vale o conceito, mais que os fatos.

Cartola é interpretação do que foi e significou para o Brasil, em certo período, esse compositor extraordinário. Fala do resto que fica para uma cultura de tudo aquilo que o criador produziu em sua vida, já encerrada. É sobre sedimentos e heranças. Sobre memória e esquecimento.