Cartola: o Brasil chique
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Cartola: o Brasil chique

Luiz Zanin Oricchio

06 de abril de 2007 | 13h24

cartola
Cartola em seu trabalho como contínuo no Ministério da Agricultura

Há um Brasil falso-chique, esnobe, que acaba sendo brega. O Brasil da Daslu, digamos. Há o Brasil chique para valer, profundo, inventivo, artístico. O Brasil de Cartola, por exemplo. O Brasil de músicas maravilhosas como As Rosas Não Falam, Acontece, O Mundo É um Moinho, para citar apenas algumas das mais conhecidas. Pois bem, entra hoje em cartaz um filme sobre o compositor, um documentário digno do gênio popular que ele foi – Cartola, Música para os Olhos, dirigido pelos pernambucanos Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Eu aconselharia demais esse filme para quem já anda saturado da pregação derrotista que põe sempre o Brasil à beira do abismo, quando não já devidamente instalado dentro dele.

Não, nada em Cartola é ufanista. Pelo contrário. Como poderia ser ufanista um filme que registra a trajetória de um gênio da música que só conseguiu gravar seu primeiro disco quanto tinha 66 anos de idade e ganhava a vida como contínuo e lavador de carros? Bem, esse é o Brasil e, como tantas outras nações, é injusta com o que tem de melhor – o seu povo. E, entre esse povo, de vez em quando acontece o milagre e nasce gente como o próprio Cartola, Nelson Sargento, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Zé Kéti, todos grandes artistas populares.

O filme de Lírio & Hilton não é exatamente uma cinebiografia tradicional, didática. Preocupa-se mais em interpretar o significado de uma vida como a de Cartola para a história brasileira do que em reconstituí-la de maneira escolar. Traz imagens inéditas de Cartola cantando sucessos como As Rosas Não Falam e outras músicas. Mas há também imagens incríveis, e pouco vistas (eu pelo menos não conhecia) como a de Cartola ao lado do pai, que parecia mais moço do que ele. Elas foram feitas quando Cartola faliu com seu bar Zicartola e foi morar com o pai em Jacarepaguá.

Lírio e Hilton usam também farto material de arquivo, para propor uma história do seu Angenor de Oliveira, nome de batismo de Cartola, que fosse além de uma cinebio. Intercalam filmes e documentários de época para compor o painel de um Brasil que vem lá de trás, do getulismo, passa pelo período JK, Jânio e Jango, avança pela ditadura e mostra o papel que teve a música popular brasileira naquele momento convulsivo. De um lado havia a bossa nova, com seus barquinhos e azuis do céu; do outro, o engajamento do show Opinião. E, em outro canto, os velhos sambistas, com Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça e o próprio Cartola.

Foi uma das épocas mais férteis – e também dilaceradas – deste país. Ela aparece, ou melhor, explode na tela, através da trajetória do compositor proposta pela dupla de pernambucanos Lírio & Hilton. Um filmaço, impregnado de Brasil.

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