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Cartier-Bresson: o olhar do século

Luiz Zanin Oricchio

16 de fevereiro de 2009 | 22h40

Você com certeza já deve ter visto algumas dessas imagens: Sartre na Pont des Arts, Gandhi, um casal se beijando em Paris, um garoto sorridente carregando duas garrafas de vinho na Rue Mouffetard, o rosto trágico de Edith Piaf. São de Henri Cartier-Bresson (1908-2004), sinônimo de fotografia no século 20. Contra sua vontade, ele fundou uma escola e um estilo. A teoria do “instante decisivo”, a opção pelo preto-e-branco, a Leica, a recusa ao uso do flash – tudo isso constituiu uma mitologia em torno do homem que elevou a fotografia à condição de arte (teve exposições em Nova York e no Louvre num tempo em que a fotografia era considerada apenas registro técnico). Ao mesmo tempo, com Robert Capa, fundou o fotojornalismo. Virou ícone e mito mas fez questão de manter sua vida pessoal numa zona de sombra. Seu biógrafo Pierre Assouline tenta levantar o véu de mistério que cerca esse personagem em Cartier-Bresson – O Olhar do Século, que sai agora pela L&PM (tradução de Julia da Rosa Simões, 352 págs., R$ 56).

Assouline não se contenta em fazer uma biografia convencional. Além de reconstruir a vida de Cartier-Bresson (designado, na França, pela sigla HCB), procura compreender seu processo de trabalho, entender o que faz de uma foto dele algo único, singular, inimitável. Assouline tem prática na coisa. Entre outros, já biografou personalidades como Georges Simenon, Gaston Gallimard e Hergé, o criador de Tintin. É jornalista cultural do Le Monde e mantém no ar o blog literário de maior sucesso em seu país (http://passouline.blog.lemonde.fr/), com milhares de acessos e centenas de comentários por dia. Certo, é na França, mas mesmo assim, invejável.

Compreensão implica entendimento do contexto. HCB vem de família rica. Essa contingência, independente da vontade do sujeito pois ninguém escolhe o berço em que nasce, pode conduzir à soberba, à indiferença ou a nada disso. Já a riqueza do jovem Henri fazia-o sentir culpa em relação às classes desfavorecidas. Menino, recortou do jornal L?Echo de Paris o artigo intitulado De Onde Vem o Dinheiro? e o pregou em cima do espelho, para vê-lo todas as manhãs. A culpa é elemento importante na motivação, ensinou Freud (“Não é a fé, é a culpa que remove montanhas”, dizia).

Isso pode em parte explicar a escolha de temas, mas de onde vem a “estética” das fotos de HCB, sua incomparável noção de volume, os retratos famosos, instantâneos que parecem resumir toda uma vida dos fotografados? Nesse caso é preciso lembrar que a primeira vocação de Cartier-Bresson foi a pintura – ele ama Cézanne, em particular. Mas também a literatura, tendo Proust como guia de toda a vida. “São suas verdadeiras referências culturais”, escreve Assouline. “São seus ?fotógrafos? de cabeceira.” O jovem Henri cuida também da parte “técnica” e se matricula na escola de André Lothe, onde trabalha a pintura e, em especial, o desenho. Vai com regularidade ao Louvre e copia obras dos mestres. De Lothe apanha o “vírus” da geometria. Adota como seu o lema da Academia de Platão: “Quem não for geômetra, não entre.”

O curioso é que, na composição da personalidade de HCB, o espírito de geometria tenha de se afinar com o que parece ser seu oposto – a convivência com Breton e Aragon, e portanto com o surrealismo, seu flerte com o inconsciente, o acaso e o desejo. Dessas exigências contrárias ele tira a síntese que seria a grande lição de Lothe: não existe liberdade sem disciplina. Na verdade, o que acontece nesses anos de formação é menos a aquisição de uma técnica ou o aprendizado de um ofício do que a formação de um olhar. Olhar que, por sua vez, encontra na flexibilidade de um aparelho fotográfico alemão o seu veículo perfeito. Esse é um dos casamentos do século: HCB e a sua Leica.

União que poderia ser menos fértil caso HCB fosse um artista de gabinete. Pelo contrário, ele se mostrou viajante incansável, tendo morado em vários países. Além disso, buscou sempre fazer-se presente onde as coisas aconteciam, ou poderiam acontecer. Esteve na guerra civil na Espanha, foi feito prisioneiro durante a 2ª Guerra Mundial, escapou e assistiu à Liberação de Paris. Registrou, com terror, a caça aos colaboracionistas. Estava na Índia quando Gandhi foi assassinado e foi dos últimos a vê-lo com vida. Em contato com o inesperado da experiência, era insuperável na escolha daquele momento único no qual o obturador deve ser disparado para captar uma imensidão de vida em uma fração dela. Toda a arte da fotografia está na escolha desse momento, que HCB definiu como o “instante decisivo”. Por isso, um dos seus personagens, Sartre, pôde defini-lo como “o homem que fotografou a eternidade”.

Em tempo: o próprio Henri Cartier-Bresson odiava ser fotografado. Só deixou sua imagem ser captada em raras e especiais ocasiões.

(Cultura, 15/2/09)

Abaixo, entrevista com o biógrafo Pierre Assouline:

Você é biógrafo e era amigo de Cartier-Bresson. Essas duas condições não se contradizem?

Não há contradição, mas complementariedade. Eu tinha toda a liberdade e jamais refreei meu espírito crítico. Caso contrário eu não poderia escrever e teria renunciado ao projeto. Era nosso pacto.

No fim do volume você escreve que o livro é produto de cinco anos de conversas, correspondência, pesquisas, etc. Como organizou o material?

Exatamente da mesma maneira que as outras nove biografias que escrevi. Recolhi material durante alguns anos e, em seguida, coloquei tudo no chão, olhei as peças do quebra-cabeça, ajeitei-as e escrevi.

Duas reaparições constantes na vida de HCB, que fazem pensar no “rosebud”, de Welles: a frase “de onde vem o dinheiro” e sua faca de estimação Opinel.

A frase é seu rosebud escrito, Opinel, seu rosebud objeto. Isso guiou sua vida. A frase o influenciou porque ele era complexado pelo fato de ser filho de família rica.

A trajetória de HCB parece surpreendente – da pintura à foto e da foto de volta à pintura. Como compreendê-la ?

Nem tão surpreendente assim, porque se trata menos da pintura do que do desenho. Ele formou seu olhar de fotógrafo no Louvre e na Academia Lothe. O importante não é nem o material e nem a técnica. É o olhar.

Em todo caso, essa formação parece bastante paradoxal: da pintura (da educação com Lothe, vem o senso de geometria e a admiração por Piero della Francesca); da convivência com os surrealistas, o trabalho com o inconsciente, o amor pelo acaso, etc. Como conciliar tudo isso?

O surrealismo é a sua juventude. A geometria é seu ser profundo. É o ying e o yang, o surrealismo e a geometria. Ele é produto dos dois. Da loucura na razão, a emoção que corrige a regra, é isso a irrupção permanente do surrealismo em seu espírito de geometria. Pode-se mesmo dizer, em alusão a Pascal, que HCB é o encontro entre o espírito de fineza e o espírito de geometria.

HCB era um viajante, cobriu guerras, esteve em vários países em momentos importantes como o assassinato de Gandhi, por exemplo. Você o imagina fora do contexto de um século tão violento e cheio de contradições como o século 20?

Não imagino. Eu o tomo como ele é e no tempo em que ele viveu. Imaginar um outro HCB seria da ordem da ficção científica.

Alguns aspectos técnicos são interessantes em sua carreira. Por que o preto-e-branco e não as cores? Por que a Leica e não outra câmera?

Abaixo a técnica! O preto-e-branco correspondia à sua sensibilidade. Quanto à Leica, era o aparelho que melhor correspondia, por sua leveza, sua manejabilidade, sua discrição, ao seu desejo de ser repórter.

A teoria do instante decisivo, o preto-e-branco, etc. – para HCB tudo isso diz respeito a uma estética ou a uma ética da imagem.

Uma somada à outra.

Entre as viagens de HCB notei a ausência de América Latina, com exceção de Cuba. Por quê?

Uma vida não é suficiente para esgotar o mundo. Ele era europeu antes da guerra. Com uma longa permanência no México. Em seguida, voltou-se para a Ásia.

As relações de HCB com o cinema são muito interessantes, em especial sua colaboração com Jean Renoir. Por que ele não seguiu esse caminho?

Porque ele compreendeu que seria melhor fotógrafo que cineasta. A foto é o individualismo, a solidão, a liberdade. O cinema é o coletivo, o grupo, o peso.

Muitas vezes os biógrafos tentam esgotar o assunto. Notei que você preserva um lado “misterioso” de HCB…

Concordo plenamente. Guardemo-nos da tentação de tudo explicar.

Por que as biografias e como explica o sucesso de seu blog sobre literatura?

Em relação ao blog é a fidelidade dos leitores a um blog que, por sua vez, lhes é fiel porque temos um encontro marcado em torno de um novo artigo a cada dia. E depois há a questão da credibilidade. Quanto ao porquê da biografia, eu precisaria escrever um tratado para lhe responder. Tenho uma nova biografia em preparação, sobre um personagem em relação ao qual ninguém pensa e com uma forma que pretende revolucionar o gênero…

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