Cartas Psicografadas por Chico Xavier
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Cartas Psicografadas por Chico Xavier

Luiz Zanin Oricchio

12 de novembro de 2010 | 14h23

Na atual leva de filmes espíritas, Cartas Psicografadas de Chico Xavier, de Cristiana Grumbach, ocupa um lugar à parte. Ao invés de assumir uma crença, trabalha com um dado bem terreno – e delicado – a dor alheia. A cineasta não discute se existe vida além-túmulo e se é possível se comunicar com os mortos. Simplesmente entrevista pessoas (mães, em geral) que sofreram o pior dos traumas possíveis, a perda de um filho.

Cristina busca um método de filmagem tão simples como rigoroso. Os planos em geral são parados e os enquadramentos pouco variam de entrevistado para entrevistado. Trata de captar a intimidade dos personagens, ao mesmo tempo evitando ser invasiva para não espetacularizar a sua dor. Quer dizer, em certo sentido, a dor é tornada pública, pois é transmitida a nós, espectadores, mas não se oferece jamais como um show do sofrimento.

Sem questionar a opção religiosa dos entrevistados, o filme observa, em relação de simpatia, a função consoladora do espiritismo. A comunicação com os filhos, supostamente estabelecida através das cartas, garante que o ente querido não está morto; apenas passou para outro estágio de existência; melhor, mais depurado, no fundo mais feliz. E ele está lá, esperando por um futuro reencontro com os seus.

Todos os entrevistados passaram por experiências semelhantes. O trauma, o inconformismo, depois a visita a Chico Xavier em Uberaba, e por fim, o ritual das cartas psicografadas por seus mortos. Algumas dessas cartas são lidas durante o filme. Não são iguais, mas mantêm algumas estruturas comuns, o que leva a certa reiteração. Esta, porém, tem sua função. Significa o trabalho de luto que não termina (porque não pode terminar), mas é atenuado, nas mães e nos pais, por rituais de repetição. A mesma repetição determina assim a estrutura mesma desse filme humano e delicado que, com a remontagem do material empreendida pela diretora, ficou melhor.

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