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Manaus 2009: Carole Bouquet – a beleza só não basta

Luiz Zanin Oricchio

11 de novembro de 2009 | 12h24

MANAUS

Linda ela sempre foi e continua a ser aos 52 anos. Beleza abre portas. Mas Carole Bouquet, madrinha do Amazonas Film Festival, não é apenas um rosto – e um corpo – bonito. A atriz que fascinou Luis Buñuel tem muito a dizer e não se fascinava à toa o bruxo espanhol, que a convidou para fazer um dos seus melhores filmes da fase final – Esse Obscuro Objeto do Desejo, de 1977. “Esse foi um trabalho formador em minha vida”, diz Carole, em conversa exclusiva com o Estado. “Você nunca mais é a mesma depois de trabalhar com um diretor como Buñuel. É uma experiência que te serve para o resto da vida, e não apenas em termos profissionais”.

Carole recebeu o Estado para entrevista em uma suíte do Hotel Tropical, em Manaus. Chegou vestida de maneira impecável, num tailleur bege. Queixou-se do ar condicionado, iria fazer mal à sua garganta. Tem razão. Esse é um dos problemas na adaptação ao clima dos trópicos. Escaladante lá fora, gélido dentro. Carole teme o choque térmico. Ajeitado o aparelho, ela começa a falar. Contida, precisa, cartesiana. Há aí um gelo aí a ser quebrado e ele não vem do ar condicionado. E o caminho para isso passa por Buñuel.

Sente-se, pelo que ela fala, o quanto essa experiência foi transformadora para a jovem de 19 anos que era então. Carole foi chamada para interpretar um dos dois papeis femininos de Esse Estranho Objeto do Desejo – o outro é da espanhola Angela Molina. Ambas vivem Conchita, a mulher que atormenta o velho sátiro Mathieu (Fernando Rey) com a promessa de um paraíso sexual que jamais se concretiza. Carole interpreta a Conchita que promete; Angela, a Conchita que recua e se mostra sádica com o pretendente. O gênio de Buñuel fez com que ele escalasse duas atrizes para viver a mesma personagem e lhes desse personalidades diferentes e portanto imprevisíveis para o personagem masculino. Pobre Fernando Rey…Mas, ao mesmo tempo, bendito Fernando, por contracenar com duas atrizes como essas.

O repórter quer saber se a experiência de ter trabalhado com Buñuel foi algo único ou podia ser estendido aos seus outros papeis. A resposta é complexa: “É algo único, mas que nunca te deixa; não pode ser repetido mas está sempre com você, passa a fazer parte de você”. Carole diz que um dos inúmeros benefícios de ter sido dirigida por Buñuel foi perceber, de maneira prematura, que o ator é apenas parte de algo maior. Quer dizer, foi uma lição ao ego de menina bonita. “Lá o gênio era ele, o roteiro era mais importante do que nós, o que ele pensava, a sua concepção do filme, suas ideias, tudo isso era o fundamental, não nós, que estávamos apenas ajudando a dar forma ao mundo interior daquele artista”.

Mas essa, digamos assim, “humildade” diante do gênio a preparou também para dar seus pitacos, sempre que considerou necessário. Ela conta como interveio, por exemplo, num ponto chave de outro de seus grandes sucessos, Bela Demais para Você, dirigido por Bertrand Blier em 1989. Na história, Carole é casada com o personagem de Gérard Depardieu que, de maneira inexplicável, passa a ter um caso com a secretária, a sem graça Josiane Balasko. No roteiro original, a personagem de Carole, Florence era uma mulher belíssima porém de caráter problemático. “Isso facilitava as coisas para o espectador, ele poderia pensar que ele trocou a bela pela outra por causa do seu melhor temperamento. Pedi a Blier para mudar e dar à minha personagem um caráter bom também. No começo ele não gostou nada, mas acabou concordando e acho que o filme ficou melhor assim.” Pelo menos ele surpreende – e isso é essencial. “Acho muito triste quando um espectador vai ao cinema e sai sem qualquer coisa que o tire do eixo”, diz.

No entanto, ela não se negou a fazer filmes que, em aparência, nada têm de supreendente, como uma aventura de James Bond, Para Seus Olhos Somente, de John Glen, em 1981. Roger Moore era o 007 da vez mas nem por isso Carole se divertiu. “Foram seis meses chatos. Os filmes de ação podem ser interessantes para o diretor, para o produtor, para quem faz os efeitos especiais, mas nunca para os atores”, diz. São meses a fio de trabalho, representando contra um fundo verde ou azul sobre o qual serão colocados os efeitos. E nenhum desafio de interpretação maior – o que, para uma atriz formada no mais intelectualizado cinema europeu pode significar uma boa dose de tédio. No entanto, ela não se queixa: “Ninguém me obrigou a fazer um blockbuster; eu queria conhecer aquilo, já tive a minha experiência e pronto. Não recomendo.”

Mas, mesmo devotando-se a 007, Carole não abandonou o cinema dito de arte. No mesmo ano em que era bond girl, filmava com o cult alemão Werner Schroeter O Dia dos Idiotas, que competiu no Festival de Cannes de 1981. “Era engraçado ver um poster imenso do filme de James Bond, eu com as pernas enormes, fixado no Hotel Carlton, ao lado de um pequeno cartaz do filme de Schroeter. Amigos brincavam comigo e diziam que eu havia trabalhado em um para fazer a propaganda do outro.”

Atualmente Carole Bouquet trabalha num projeto que fará com André Téchiné, em Veneza, no ano que vem. Do que não gosta mesmo é falar de sua vida pessoal. Quando lhe perguntam de outro ícone do cinema francês, o ator Gérard Depardieu, com quem fez vários filmes e viveu por oito anos, ela dá a resposta convencional: “Somos bons amigos”. Mas depois acrescenta um comentário que não deixa de ter sua sabedoria: “Deve-se ser sempre amiga de quem se amou”. Voilà. É isso.

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