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Caos Calmo

Luiz Zanin Oricchio

03 de outubro de 2008 | 21h02

O título – Caos Calmo – evoca uma possível contradição. Como pode um caos ser calmo? De que maneira estabelecer serenidade em uma situação de desordem? O filme, baseado no romance homônimo de Sandro Veronesi, tenta mostrar que não existe tanta incompatibilidade assim entre esse substantivo e esse adjetivo, e que uma estranha calma pode ser uma reação possível a uma situação caótica.

É bom que se diga, de entrada, que o filme, dirigido por Antonio Luigi Grimaldi, segura-se muito na interpretação de Nanni Moretti – aqui num papel dramático, mas sempre, segundo sua tendência, com algumas linhas de humor na costura final. Ele faz Pietro, executivo que, um dia, salva uma mulher que estava se afogando numa praia (Isabella Ferrari). Acontece que, enquanto Pietro praticava a sua boa ação, longe dali, a sua própria esposa morria, diante da filha, de um mal súbito. Quando volta à casa de veraneio onde a família passava férias, Pietro a encontra caída no chão, a filha inconsolável. Como resultado, Pietro deve administrar um luto bastante imprevisto em casal relativamente jovem e tem de assumir a responsabilidade paterna junto à filha em tempo integral.

Essa é a maior situação de estranheza, e que dá força à história. Pietro deseja tornar-se tão próximo da filha que praticamente abandona o trabalho, passa a levá-la à escola e fica à sua espera sentado num banco em frente do colégio.

Boa parte do filme se desenrola nesse ambiente – na pracinha defronte à escola, onde Nanni trava conhecimento com o vendedor de jornais, com a garota bonita que passeia com o cachorro, com o dono do restaurante onde faz as refeições, etc. Cria-se uma microssociedade. É lá também onde vão encontrá-lo as pessoas que têm assuntos a tratar com ele – sua cunhada (Valeria Golino), com quem teve um caso no passado, colegas da multinacional onde trabalha, e até o poderoso chefão da empresa, uma ponta de Roman Polanski.

Não se pode negar que o filme tenha qualidades. Consegue certa intensidade emocional nesse singular trabalho de luto a que se submete o personagem. Pois é bem disso que se trata, afinal. Pietro está traumatizado pela morte da esposa e sua vida entra em colapso; ao mesmo tempo, procura controlar-se, não demonstrar sentimentos, na esperança de que assim livre a filha de sofrimento. Em meio a essa salada de sentimentos, procura dar uma ordenação à vida. Na verdade, busca uma ordem total, na forma de dedicação integral à criança. Controla-se para que ela não sofra com a perda da mãe. Sem perceber que, sem o sofrimento, também o trabalho de luto, de que falava Freud, não pode ser realizado.

O luto comporta uma certa expiação, mesmo uma determinada culpa, por irracional que ela seja. Por exemplo, a garota Claudia (Blu di Martino) reprova o pai porque ele não estava em casa no momento em que a mãe passa mal, e termina morrendo. Ora, Pietro estava na praia, ali perto, em companhia do irmão (Alessandro Gassman) e, inclusive, salvava uma vida. Era algo assim: uma vida pela outra. Só que Pietro resgatava a vida de uma estranha e não de sua mulher e mãe de sua filha. Tudo isso é irracional, mas as culpas desse tipo também não são racionais. Quem for buscar a “lógica” da história terá de levar esses fatos em consideração. Não somos seres racionais. Pelo menos não inteiramente. Pietro é um exemplo disso. E tenta administrar a subversão interna que experimenta com um máximo de controle. Tenta conter o caos e manter-se calmo.

É pena que essa proposta inteligente sirva-se, muitas vezes, de situações próximas ao melodrama para, supostamente, tornar-se mais intensa ou emotiva. O filme poderia dispensar-se desses recursos. E orientar-se pela intuição de Nanni Moretti para esse tipo de coisa, mesclando mais humor e discrição aos tons pesados do enredo. Acontece que, nesse caso, Nanni era o ator e não o diretor.

(Caderno 2, 3/10/08)

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