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Cão come Cão, Bressane e Pachamama

Luiz Zanin Oricchio

14 de agosto de 2008 | 11h38

GRAMADO – Boa noite de cinema ontem em Gramado com o colombiano Cão Come Cão e o brasileiro Pachamama. Não seria o contrário? Não. É que Eryk Rocha, em seu novo documentário, põe a mochila nas costas e vai ao encontro da realidade latino-americana, passando do Brasil pelo Peru e Bolívia. Pachamama é a mãe terra, em quéchua.

Mas não se espere do filho de Glauber um documentário careta, convencional. Autor de Rocha que Voa, ensaio poético sobre a obra do pai, e Intervalo Clandestino, reflexão sobre o processo eleitoral brasileiro, Eryk pratica um cinema de invenção, às vezes sem centro ou linha reta, e deixa-se guiar pelas imagens…e pela inspiração de momento. Imagens: não há nenhuma que seja banal neste ensaio-doc sobre a América Latina. E, como dizia no século 19 Isidore Ducasse, o conde de Lautréamont, não se deve associar poesia a distanciamento da realidade. Pelo contrário. Nada existe de mais prático do que a poesia (ou pelo menos certa poesia), pois ela significa imersão radical na essência das palavras e das coisas.

E assim, Eryk, com seu documentário poético, não pode deixar de passar pela política do continente, por suas contradições, tão à flor da pele quanto a natureza selvagem, quase metafísica, da cordilheira andina. Há emoção, há inquietação e sentido visual de abertura nesse belo filme.

Cão come Cão, do colombiano Carlos Moreno, deixou siderado alguns espectadores e foi recebido muito bem pelo público de Gramado. É filme forte, violento, parte do brutalismo latino-americano, proposto, entre outros, pelo mexicano Alejandro González Iñarritu, em sua melhor fase (a de Amores Perros, por exemplo). Aqui se trata de um acerto de contas entre os membros de um bando de Cáli, em que cobiça e desejo se mesclam para terminar na conhecida parábola da inutilidade do bem material quando o que está em jogo é a própria vida. Tema tão antigo quanto Ouro e Maldição, de Strohein, ou O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston o que há aqui é a cobiça que leva à perdição. Linguagem cinematográfica intensa, em planos rápidos e bem cortados, violência em alto grau, porém insinuada em momentos mais duros. Belo filme, também.

Na mesma noite houve a homenagem a Julio Bressane, que recebeu o troféu Eduardo Abelin. Bressane subiu ao palco e lembrou que seu cinema ensaístico nunca havia sido muito prestigiado em Gramado (ao contrário do Festival de Brasília, onde ele é rei). E agradeceu à nova curadoria do festival (Sergio Sanz e José Carlos Avellar) que havia quebrado essa barreira (esse “campo de concentração”, disse, em imagem pouco feliz) e possibilitado o prêmio. Foi uma homenagem meio fria, com o homenageado sendo aplaudido um tanto burocraticamente (ao contrário do que acontecera um dia antes com Walmor Chagas, aplaudido de pé). Há uma distância entre Bressane e o público comum. Há mesmo distância entre ele e parte da crítica e seria longo analisar as razões disso tudo. Basta dizer que a “persona” do diretor passa certa soberba. E que seus filmes parecem intelectualizados demais – como se sabe, no Brasil, a inteligência é ofensiva.

Enfim, Bressane é um mestre, e sua obra é magistral, mas falta-lhe às vezes o calor da emoção. É o preço de uma opção, que ele paga com o rigor de sua proposta.

Soube depois da sessão que o prefeito de Gramado havia ficado p… da vida com o que o diretor havia dito no palco.

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