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Cantoras do Rádio: o que fazer do passado?

Luiz Zanin Oricchio

12 de junho de 2009 | 22h14

Cantoras do Rádio, simpático documentário de Gil Barone e Marcos Avellar, evoca, no fundo, uma questão brasileira – o que fazer com o passado? É um tema complicado, em especial quando se trata de um grande passado, como é o caso da música brasileira. Poucos países poderiam se orgulhar de ter uma música tão rica e diversificada como o Brasil. Mas poucos países, como o nosso, deveriam se envergonhar tanto de sua amnésia em relação a esse legado. O que se coloca, sem sentimentalismo, é um processo: como metabolizar esse passado e transformá-lo em presente? Em outras palavras: como tratar o passado como forma viva e não como museu?

Todos esses temas estão em filigrana num filme, que, é bom que se diga, não os enfrenta. Pelo contrário, acaba se comprazendo na lamúria do esquecimento dos grandes artistas, na ingratidão do público, na falta de apoio governamental, etc. Não por acaso, no final da exibição pública feita em São Paulo, seu mentor intelectual, o crítico Ricardo Cravo Albin, leu um manifesto em favor de uma maior assistência aos artistas veteranos. Reivindicação justa, diga-se. Justíssima, mas o problema não está aí e sim nessa dúvida hamletiana de um povo culturalmente jovem como o brasileiro: como dialogar com o passado?

Algumas respostas estão no filme, mas como que à revelia dele. Passam pela vivacidade das cantoras por ele homenageadas – Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Ellen de Lima e Violeta Cavalcanti. É muito emocionante vê-las e ouvi-las. São testemunhas vivas de uma época de ouro da música popular, da era da Rádio Nacional, dos cassinos e dos cabarés. Era ainda um Brasil inocente, “romântico”, diriam alguns. Um Brasil que, de certa forma, se resumia ao Rio de Janeiro e, neste, a Copacabana, então uma “princesinha do mar”. Impossível não se deixar seduzir por essa época de boemia, em que músicas alegres se misturavam às canções de dor de cotovelo, feitas por Dolores Duran e Antonio Maria, com todos os protagonistas confluindo para a cantina Fiorentina, no Leme, onde as noites se encerravam. Tempos.

Mas não basta evocá-los, porque o desafio é revivê-los, como fez Wim Wenders e seu Buena Vista Social Club, que teve o poder de dar vida nova a toda uma extraordinária geração de músicos da Cuba pré-revolucionária. Não é o caso aqui. Com sérios problemas de estrutura, o brilho do filme fica mesmo por conta de seus personagens. As cantoras são nota 10. O filme é apenas regular. Mas, por elas, vale assisti-lo. E ouvi-lo.

Trailer

(Caderno 2, 12/6/09)

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