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Canta Maria

Luiz Zanin Oricchio

18 Novembro 2006 | 12h22

Os Desvalidos, de Francisco Dantas, é um romance dos mais complexos. Seu trabalho intenso com as palavras, à maneira de um Guimarães Rosa nordestino, sua trama e personagens rarefeitos, não parecem características muito propícias para se tirar um filme. Ainda mais um filme narrativo, daqueles com princípio, meio e fim. Pois bem, Francisco Ramalho, em sua volta à direção depois de 20 anos de ausência, espreme o suco do labirinto de palavras de Dantas e, dele, consegue extrair uma bonita história de amor ambientada no sertão.

E localizada na época final do ciclo do cangaço, com essas características históricas formando um pano de fundo que nunca pretende se impor à trama principal. Nesta, contam os três personagens, Maria (Vanessa Giácomo), Filipe (Marco Ricca) e Coriolano (Edward Boggiss). É uma história de amor e ciúmes no sertão, de códigos de honra muito rígidos e que acabam por cobrar uma conta muito alta daqueles que se submetem a eles. Marco Ricca tem uma presença intensa em cena. Num primeiro momento, estranha-se seu sotaque mas isso passa logo. Boggiss funciona bem, mas é de Vanessa, no papel de Maria, que vem o melhor, por seu frescor e pela sinceridade, em especial na primeira parte do filme.

Nessa volta à direção, Ramalho parece ter optado pela simplicidade. Faz, em primeiro lugar, uma exposição de narrativa direta, sem subterfúgios. Constrói a imagem também sem firulas, sem qualquer exibicionismo, como se procurasse depurar os planos, chegando ao essencial. Não vai aí nenhum julgamento de valor: há muito diretor que se vale de recursos elaborados e consegue com isso muita eficácia narrativa. Um exemplo é Baile Perfumado, um dos melhores filmes da Retomada, e que não apresenta um único plano que não seja inesperado, surpreendente, contundente.

Ramalho vai pelo caminho oposto e nem por isso deixa de ser eficaz. Onde pode fazer o simples, não opta pelo complicado. Vai em linha reta. Pousa a câmera sobre o tripé e deixa que a história aconteça. Numa época de virtuosismo (às vezes necessário, outras gratuito), tornou-se difícil valorizar a depuração e a busca do simples. Canta Maria é um bom exemplo dessa opção.

Uma escolha, parece, por um tipo de cinema que talvez não esteja se fazendo mais – detalhista, filmado em película, aliás em super 35 mm o que lhe permite uma exploração ampla de um espaço sertanejo que nunca é banal.