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Canta Maria e Os Desvalidos

Luiz Zanin Oricchio

15 Novembro 2006 | 22h34

E Os Desvalidos virou Canta Maria. Quem já leu esse romance do sergipano Francisco Dantas deve ter ficado espantado que alguém ousasse adaptá-lo ao cinema. Afinal, Dantas é tido como o Guimarães Rosa do Nordeste, com sua invenção formal no nível da linguagem e a sua ousadia no plano da estrutura mesma do romance. É um regionalismo estranho, o de Dantas, que ao mesmo tempo reatualiza e nega o ciclo regionalista dos anos 30. Ele o reinventa, coisa que passa despercebida dos sabichões que já andaram decretando por aí o fim do regionalismo em todas as suas formas. Mas para que falar dessa gente?

À tarde, o diretor de Canta Maria, Francisco Ramalho, veio visitar a redação do Estado e conversou com Luiz Carlos Merten e comigo. Ramalho não dirige um filme há 20 anos. Antes de Canta Maria seu último trabalho era o interessante Besame Mucho, de 1986. Ramalho não perdeu a mão, mesmo porque não se afastou do cinema nesse tempo todo, fazendo a produção de vários filmes de Hector Babenco. Seu próprio filme, de estilo clássico, sóbrio, tem encanto e dignidade. Ramalho nos contou que se aproximou do romance de Dantas pelo puro prazer da leitura. Leu e releu sem pressa. Consultou amigos e eles opinaram: “Aí nesse texto não tem um filme”. Ele teimou e conseguiu tirar o sumo narrativo da história e transformá-lo nesse bonito Canta Maria, que você poderá ver a partir de sexta-feira nos cinemas. A história é a de um triângulo amoroso que se resolve ao longo do tempo, contra o pano de fundo do sertão e do cangaço no Brasil rural dos anos 30.