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Cansaço – a Longa Estação

Luiz Zanin Oricchio

28 Julho 2012 | 14h56

O breve romance de Luiz Bernardo Pericás, Cansaço – a Longa Estação provoca espanto ao leitor. Trata-se de um texto breve, que talvez seria melhor qualificado como novela, não fosse este um termo equívoco entre nós, demasiado associado aos folhetins televisivos. Fica sendo então  um romance curto. Meras 98 páginas, no entanto bastante densas.

A história se passa num sertão um tanto indefinido, embora haja pistas. Estamos entre os séculos 19 e 20. As referências esparsas indicam que a República chegou faz pouco tempo. Nos ermos, o Imperador de barbas brancas, como a efígie de um santo homem, estão ainda vivas. A terra é maltratada e fala-se em seca e sol, o que não chega a ser novidade.

Nesse meio, que sentimos áspero e brutal, é que os personagens se movem. Punaré, de um lado; Baraúna, de outro. Os dois sertanejos disputando as graças de uma certa Cecilia, a quem também chamam de Cicica. Numa vaquejada, há uma briga confusa e a navalha de um atinge o rosto do outro, o que pede vingança e morte.

Eis aí a situação. Que pouco teria de original não fosse a linguagem eleita por Pericás para contá-la. O autor escolhe uma forma nada referencial para narrar essa história de pobreza, amor e ódio. A linguagem é ora popular ora erudita, como se buscasse uma mescla do falar do povo com a erudição com que um Euclides da Cunha descreve a saga sertaneja em Os Sertões. Algo também aparentado a Guimarães Rosa na busca de uma transcendência que vai além do registro regional.

O efeito sobre o leitor se impõe desde as primeiras sentenças. Estamos no sertão, podemos imaginar que seja em uma região pobre da caatinga nordestina, mas, ao mesmo tempo, pelo efeito da linguagem, esse espaço como que se universaliza. Torna-se outro. Transcende-se. E nos coloca numa situação onírica, por vezes alucinatória.

Mas por que tanta prosopopeia? Mire e veja, como diria Riobaldo, essa amostra grátis: “O problema era João Baraúna. Foi por causa de Cicica que os dois haviam brigado. Baraúna também se afeiçoara à moça e andara dando olhadelas constantes para seus atributos havia algum tempo: cintura fina, cabelos espessos e mãos delicadas como seda. Ela, contudo, aparentemente não se chegara a nenhum dos dois. Baraúna fizera investidas claras; não agradara à família da garota. ‘Frecheiro, molambento, alma podrida das profundas’, corria o dito na boca pequena dos sertanejos. Ninguém se metia com ele. Até que, na última vaquejada dos arredores, após a longa função de dança, viola e jeribita, o desajustado prognata levantou a voz, pegou o chicote e provocou o poviléu. Depois apertou o bíceps da moça e pediu um beijo. Foi nessa hora que Punaré sacou o cuchilho e riscou-lhe a face”.  Como uma palavra ou outra pode parecer estranha, Pericás não se fez de rogado e colocou um glossário ao final do volume. Basta consultar. Mas é melhor deixar-se embalar pela música do texto.

É nesse estado de ânimo que acompanhamos a disputa entre Punaré e João Baraúna pela posse da doce Cicica. Pericás narra essa peleja por dois pontos de vista distintos, os dos dois inimigos. Punaré conta a sua parte no drama e, depois, já com o texto em itálico, Baraúna fará o mesmo.  Como se fossem dois querelantes apresentando suas razões diante do tribunal do leitor. Que terá razões e motivos para proferir com dificuldade a sua sentença. Se é que estará disposto a fazê-lo ao fim do percurso.

O mais provável é que se sinta levado a levar em conta certa noção de relativismo e concluir que a distinção muito fácil entre mocinhos e bandidos talvez não se aplique no caso. Aliás, na grande maioria das vezes é assim, ao contrario do que nos leva a crer o cinema e a literatura de má qualidade. O notável é que aqui essa complexidade dos personagens seja alcançada em tão poucas linhas.