Canal 100
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Canal 100

Luiz Zanin Oricchio

13 de julho de 2010 | 19h37

pele

O grande sucesso nas transmissões da Copa da África foram os closes dos jogadores e reprodução de algumas jogadas em câmera lenta. O slow motion diz a verdade do jogo, em parte escondida pela velocidade com que é disputado. É através da câmera lenta que podemos perceber o esforço muscular empregado, a luta pela ocupação de espaço entre os jogadores pela posse da bola, o desespero do goleiro. Enfim, essa modalidade de transmissão devolve ao espectador a essência do futebol, que é sua beleza de movimentos e sua dramaticidade.

Esse estilo de reprodução de jogadas não é novidade para os brasileiros. Faz lembrar o Canal 100, atração das sessões de cinema com seu noticiário de futebol sempre embalado ao som de uma música, Na Cadência do Samba (Que bonito é…), de Luiz Bandeira. Os primeiros acordes dessa música ficaram como espécie de trilha sonora de uma época, que precedia e acompanhava as imagens do futebol nas matinês de domingo. E essas imagens eram deslumbrantes. Além do slow motion, o Canal 100 valia-se de enquadramentos ousados, focados nas pernas dos jogadores, em ângulos inusitados, além do registro dos torcedoras. As imagens caprichadas se deviam a um câmera, Chico Torturra, que, para cineastas como Oswaldo Caldeira (diretor de Passe Livre e Futebol Total), foi o maior cinegrafista de futebol no Brasil ou em qualquer país ou época. Parece exagero. Basta olhar as imagens do Canal 100 para se convencer de que Caldeira apenas faz justiça a um nome que caiu em relativo esquecimento.

O Canal 100 era dirigido por Carlos Niemeyer. Caldeira destaca que Carlinhos era não só o dono como a alma do Canal 100, que não existiria sem seu empenho e amor pelo futebol. Ele se diz chocado quando vê intelectuais discutirem a relação entre futebol e cinema e se esquecerem de Carlinhos Niemeyer e seu Canal 100. O documentarista João Moreira Salles é de mesma opinião. Ele, que tem em seu currículo a bela trilogia Futebol (em parceria com Arthur Fontes), acha que o Canal 100 era o único tipo de filmagem que registrava esse esporte em toda sua grandeza. O único que estava à altura do seu objeto de trabalho.

Mas o maior elogio veio de um mestre, Nelson Rodrigues, o dramaturgo genial e maior cronista do País: “Foi a equipe do Canal 100 que inventou uma nova distância entre o torcedor e o craque, entre o torcedor e o jogo, grandes mitos do nosso futebol em sua dimensão miguelangesca, em plena cólera do gol. Suas coxas plásticas, elásticas, enchendo a tela. Tudo o que o futebol brasileiro possa ter de lírico, dramático, patético, delirante.” O que dizer mais? Resta ver. O que pode, em parte, ser feito no site WWW.canal100.com.br.

(Caderno da Copa 2010, 13/7/10)

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