Cana Quente
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Cana Quente

Luiz Zanin Oricchio

19 de setembro de 2008 | 18h59

cana

Há, em Cana Quente, de Luiz Alberto Zakir, uma espécie de frescor amadorístico que seduz em certos momentos. O filme procura, desde o início, mergulhar o espectador no universo rural paulista. Há uma festa popular, talvez uma Folia de Reis, depois um pequeno baile, em seguida o relacionamento entre usineiros e suas mulheres, misturados a figuras da autoridade e cortadores de cana. Uma promiscuidade social que, embora meio inverossímil, tem lá suas razões dramatúrgicas de ser. E essas razões se expressam naquele manancial de pulsões sexuais acumulado numa localidade mínima, com poucos parceiros disponíveis. Situação potencialmente explosiva, portanto.

Mais ainda quando se tem a presença de um anjo exterminador, um cortador de cana que se torna objeto do desejo de várias mulheres. Índio (Hugo Casarini) tem esse complicador nas costas. Como explica seu amigo mais velho, Mineiro, ele sempre acaba envolvido em complicações com mulheres e tem de ir embora procurar outro lugar para morar e trabalhar. Ele é um pivô. E torna-se suspeito de ter assassinado uma prostituta.

O filme toma assim o caminho de um noir, que nunca seguirá as convenções do gênero. Há aspectos que incomodam, como o artificialismo dos diálogos iniciais que, no entanto, depois se tornam mais fluidos. E um tipo de direção que nunca chega ao clima de mistério a que talvez aspire. Nem transmite a idéia forte desse caldeirão pulsional reprimido. Tudo isso temos de intuir, mas do que fruir. Mas, por paradoxo, é aquilo que ele tem de inadequado e imprevisível, talvez de maneira involuntária, que o torna interessante.

(Caderno 2, 19/9/08)

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