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Caminho para Guantânamo

Luiz Zanin Oricchio

18 Novembro 2006 | 19h06

Há o aspecto político e este é o mais importante de Caminho para Guantánamo. Afinal, são de grande atualidade as conseqüências da presença americana em países como Iraque e Afeganistão, e Michael Winterbottom faz uma análise a partir de casos individuais, numa história surrealista, ou talvez escrita por um Kafka contemporâneo, mas que é dolorosamente real.

No caso, a de quatro jovens ingleses de origem paquistanesa, moradores em Tripton, que viajam para o Afeganistão, são presos por engano, confundidos com terroristas e transferidos para a prisão de Guantánamo, enclave dos Estados Unidos em Cuba. Não ficam lá uma nem duas semanas, mas dois anos e meio, submetidos a torturas e humilhações de todo o tipo. O caso deveria ser recordado a cada vez que se fala de civilidade ocidental para contrapô-la à suposta barbárie muçulmana, segundo a ideologia que corre, comprada inocentemente (ou não) por comentaristas do mundo todo, Brasil incluído.

O segundo aspecto a ser visto no filme é sua opção de linguagem, isto é, a maneira como conta a história real, com uma técnica fronteiriça entre o documentário e a ficção. Há cenas filmadas no Paquistão e no Afeganistão, mas as da prisão de Guantánamo foram realizadas no Irã, por motivos facilmente compreensíveis.

A técnica, que atende pelo nome pouco elegante de ‘docudrama’ é, no entanto, muito eficiente. Anda no fio divisor entre gêneros tão diferentes e se aproveita do melhor dos dois. Do documentário toma a autenticidade, a ausência de glamourização, o tom jornalístico e urgente. Da ficção, usa o artifício narrativo, o suspense, a intensidade do trabalho do ator, os cortes na continuidade. Enfim, para dizer que Caminho para Guantánamo não apenas é muito atual e necessário como também é bom cinema.

Essa maneira trepidante de narrar, o sentido de urgência e cumplicidade usados por Winterbottom lhe valeram o Urso de Prata no Festival de Berlim com outro filme na mesma tonalidade política e emotiva – Nesse Mundo, já exibido no Brasil.

De certa maneira são procedimentos inspirados no grande cinema político italiano, filão maior e mais significativo desse gênero que floresceu durante os anos 60 e 70. Nesse sentido, Winterbottom realiza uma releitura contemporânea dessa tendência que, apressadamente, já havia sido relegada ao museu da história do cinema. O diretor inglês prova que o cinema político não apenas está vivo e são como ainda dispõe de trunfos para sensibilizar a platéia. Pelo menos aquela parte da platéia que se interessa pelo que acontece neste nosso mundo das coisas reais.