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Cairo 678 – a Condição Feminina

Luiz Zanin Oricchio

09 de março de 2012 | 17h58

Em Cairo 678, cabe a um homem, o egípcio Mohamed Diab denunciar a opressão feminina em seu país. Escolhe três personagens, Fayza, Seba e Nelly para tratar de um tema espinhoso – o assédio sexual que, até bem pouco tempo, oficialmente não era considerado crime e era escondido minuciosamente pela sociedade egípcia.

A história mescla histórias diferentes de assédio. Pode ser doméstico, por parte do próprio marido; pode ser o caso extremo de um estupro, ou ainda avanços masculinos no interior de um ônibus superlotado. As mulheres também pertencem a classes sociais diferentes e têm níveis de instrução muito distintos entre si. O que as une é a percepção de completo desamparo diante da sociedade egípcia. Numa cultura machista, são tratadas como objetos sexuais e não têm a quem recorrer. Outro ponto comum entre as três é o inconformismo com essa situação, e a disposição de mudar as coisas mesmo que seja a preço de atitudes consideradas extremas. Como usar um estilete para desencorajar os donjuans de coletivos, por exemplo. Ou a disposição de levar adiante uma queixa de assédio, mesmo contra a opinião da própria família e dos advogados e policiais.

A sociedade avança por conta de teimosias desse tipo, e o diretor Mohamed Diab presta sua homenagem a essas mulheres que têm a coragem de ir contra um consenso não escrito.

Cairo 678 é sim um filme de denúncia. E, portanto, corre o risco de ser apenas demonstrativo, como costuma acontecer com esse tipo de obra. No entanto, Diab toma algumas precauções para tornar o que expõe mais complexo. A principal disposição é a de mostrar as contradições internas das personagens. Por um lado, elas têm a consciência muito determinada de que são oprimidas e precisam fazer algo, mesmo que radical, para alterar a realidade. Por outro, são mulheres formadas dentro de uma determinada cultura de submissão e, por isso, são a todo momento vítimas de outro assédio, este mais sutil, o da culpa internalizada, a crença de que foram criadas para um papel subalterno e para se calar, mesmo diante de injustiças. Essa divisão as torna seres mais complexos e, por isso mesmo, mais verdadeiros e fascinantes.

Por outro lado, Diab evita transformar todo o gênero masculino egípcio em algoz das mulheres. Se muitos deles são visto como cruéis, indiferentes ou fracos, outros, um em especial, coloca-se ao lado delas. E também de maneira complexa e nada unívoca. Talvez seja apenas no momento em que aprende que se tornou pai de uma criança do sexo feminino é que um policial pode, de fato, se identificar com aquelas mulheres.

É um momento muito bonito do filme que, em termos visuais, fica no feijão com arroz, porém bem temperado. A opção pela simplicidade não deve ser subestimada. Com seu despojamento, Cairo 678 discute direitinho o que se propõe e leva o espectador a um estado de empatia com suas três maravilhosas protagonistas. Não se trata, porém, de uma adesão boboca e acrítica, mas de uma simpatia que leva em conta os dados culturais e históricos do país onde tudo se passa. Vivemos um momento em que se acentuam muito (e por motivos ideológicos, em sua maior parte) as diferenças culturais entre ocidente e oriente como fonte de conflitos no pós Guerra Fria. “Choque das civilizações”, como no livro reacionário de Samuel Huntington. Cabe ver melhor como as sociedades mais fechadas se criticam do seu próprio interior, e a partir de suas contradições. É o que de mais profundo nos indica este Cairo 678.

(Caderno 2)

 

 

 

 

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