Caía a tarde como um viaduto…
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Caía a tarde como um viaduto…

Luiz Zanin Oricchio

04 de maio de 2020 | 09h58

Caía a tarde como um viaduto…

Quem ousaria escrever um verso como esse, com essa imagem brutal? “Caía a tarde como um viaduto”. Aldir Blanc o fez . Todo mundo o conhece como primeiro verso de O Bêbado e a Equilibrista, parceria com João Bosco (como tantas outras). 

O Bêbado e a Equilibrista foi chamado de “hino da Anistia”. Não espero de ninguém que não tenha vivido aquele tempo a dimensão real da coisa. Mas, para nós, fartos da ditadura, a Anistia significava a volta dos que haviam sido expulsos de sua pátria – justamente por dedicarem suas vidas a ela. Um primeiro e tímido reencontro do país consigo mesmo. E sinalizaria também o começo do fim daquele regime odioso que nos oprimia desde 1964. 

Na letra, Aldir falava também da “volta do irmão do Henfil/com tanta gente que partiu/num rabo de foguete”. Referia-se a Betinho, o sociólogo Herbert de Souza, irmão do cartunista, que, de volta ao Brasil, lideraria uma fantástica campanha contra a fome, vergonha maior do país. 

Aldir Blanc nos deixou na madrugada de hoje, vítima da covid-19. Tinha 73 anos. Não falarei sobre o conjunto da sua obra – outros, mais qualificados, o farão. 

Quero apenas lembrar desse Aldir Blanc, que naquele momento de aflição deu forma poética à nossa esperança equilibrista. 

Jamais poderemos pagá-lo por isso, a não ser com nossa eterna gratidão. 

Obrigado, Aldir.   

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