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Cahiers entrevista autor de Juventude em Marcha

Luiz Zanin Oricchio

04 de fevereiro de 2007 | 21h14

Juventude em Marcha, de Pedro Costa, foi uma das atrações cinéfilas da mais recente edição da Mostra de Cinema em São Paulo e tem conquistado atenções por onde passa. Pedro Costa é o principal entrevistado da Cahiers du Cinéma de janeiro e a escolha não deixa de ser curiosa, mas por motivos extra-cinematográficos.

Além dos méritos em si do filme, a entrevista deve-se a uma tomada de posição política da revista. Juventude em Marcha tinha estréia prevista para a França para o mês passado e o diretor de redação havia reservado para o filme a primeira página do Cahiers Critique, a nobre seção de críticas. Mas por insondáveis mistérios da distribuição de filmes de arte, a estréia foi adiada sine die.

A revista resolveu então entrevistar seu diretor e colocá-lo em outra parte da revista como forma de marcar posição e ‘defender o filme’, como é dito na abertura da entrevista assinada por Emmanuel Burdeau e Jean-Michel Frodon, diretor de redação da Cahiers. O nó do impasse se situa na condição híbrida dessa co-produção franco-portuguesa: produzido pela Arte, ao que parece sob o regime de ‘filme para televisão’, haveria problemas para sua exibição em salas. Situação confusa? Sim, admitem os redatores. O fato é que Juventude em Marcha não havia entrado em circuito em Paris, para decepção de críticos e cinéfilos que o aguardavam desde que causara frisson em Cannes 2006. Como compensação, ganhamos a entrevista com Pedro Costa.

Nela, o diretor português explica que Juventude em Marcha pode ser visto como desdobramento de um filme precedente, O Quarto de Vanda, também filmado no bairro popular de Fontainhas,em Lisboa. Vanda é também personagem de Juventude em Marcha. Mas O Quarto de Vanda seria a origem documental que permite a ficção de Juventude em Marcha? Na verdade, não há documentário nem ficção, mas um híbrido de ambos. E de fato, o ‘personagem’ de Juventude é Ventura, um negro elegante, imigrante de Cabo Verde, que havia contado sua história a Costa e assim representa a si mesmo no filme.

Na entrevista, Costa é reticente sobre influências. A Cahiers comenta, à guisa de pergunta: ‘Vêem-se muitas referências no filme, Straub, Eustache, Ozu, Ford…’ Resposta: ‘Adoro Ozu, isso se vê, mas onde? Outros espectadores falam de Ford, porque Ventura mescla o coletivo e o individual e havia muito disso em Ford, também. Ford era um homem muito sofrido, infeliz. Mas quando ele falava e dirigia os homens, tornava-se de pronto muito feliz, e muito forte.’ Esse é Ventura no filme. E Pedro Costa.

O diretor não se isenta da responsabilidade ética de filmar esse outsider cheio de nobreza: ‘Todo dia, quando eu acordava, me perguntava como fazer para estar à altura daquele sujeito. Pode chamar isso de cuidado moral, ético, respeito, o que se quiser. Como filmar bem esse homem, para contar direito a sua história?’

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