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Cadê o senso de humor do brasileiro?

Luiz Zanin Oricchio

14 de setembro de 2007 | 16h33

PARIS – Amigos, estou no Charles de Gaulle esperando meu vôo para o Brasil e mato o tempo blogando um pouco. Para dizer a vocês que foi muito revigorante essa semaninha em Paris. Flanei, comi bem, vi alguns filmes interessantes que comento mais adiante, e visitei muitas “velharias”, como disse um comentador no post anterior.

Velharia é comigo mesmo, tanto assim que a parte que mais me encanta no Louvre é a coleção de Egito. Enfim, sempre produz um sentimento de iluminação ver com os próprios olhos que as pessoas de 4 ou 5 mil anos atrás se vestiam, se enfeitavam, escreviam contratos, tinham medos e esperanças, e veneravam seus mortos – exatamente como nós. As “velharias” de que fala o leitor dão um sentido de perspectiva e podem nos ensinar, quem sabe, a não levar tudo a ferro e a fogo, como se tivéssemos a capacidade de resolver tudo no tempo de uma geração.

Sei lá, é o que mais me ocorre quando visito um museu como o Louvre. Há o sentimento estético diante das grandes obras, é claro, mas essa acumulação cultural, esse trabalho de gerações sobre gerações, construindo, trabalhando, tentando dar um sentido à vida, é o que mais me toca. Acho tudo isso muito comovente mesmo.

E é claro que os museus perderam um pouco, senão por completo, esse senso de sacralidade que um dia, talvez, tiveram. No tempo da “aura” das obras de arte, para falar como Benjamin. Duvido que alguém consiga admirar a Mona Lisa com a multidão que se empurra para chegar perto, com a tempestade dos flashs disparados na tentativa de sair na fita ao lado da Gioconda. Nas outras vezes que estive no Louvre já era assim. Piorou (ou melhorou, para o museu), depois de O Código da Vinci. A própria direção do Louvre, que não é boba, propõe um roteiro seguindo os passos do filme e fatura em cima do blockbuster americano.

Assim, a bobagenzinha da moça italiana sobre o nariz da Vênus de Milo é apenas uma entre milhares de tolices que se pronunciam naquele reduto de obras-primas. É assim mesmo com o consumo de massa, inclusive com o consumo de obras artísticas. Não me incomoda. Cada um curte a vida e a arte a seu jeito. Prefiro sorrir e ser tolerante. Por isso não esperava receber comentários mal-humorados a respeito.

Aliás, ando preocupado com o humor nacional, pela amostragem depositada aqui no blog. Nós, que antes adorávamos uma boa piada, parece que andamos agora sempre de cenho cerrado. Escrevi uma coluna brincando com a turma do rúgbi e não é que recebi mensagens desaforadas? Ora, um colunista neo-zelandês, onde esse esporte é o mais popular, escreveu no Le Monde um artigo fazendo a maior gozação em cima dos jogadores de futebol, “todos mercenários e chorões”, segundo ele, “um jogo de frouxos e chato de dar dó”.

Eu sou boleiro juramentado, e não me senti ofendido. Ri com o artigo. E ele foi escrito para isso mesmo. Para rir, por gozação, porque todo mundo que gosta de um esporte sabe que todos os outros têm seus encantos. Preferimos um a outro, e é só isso. Gosto de cada um. Mas não, você brinca um pouco pessoas ficaram ofendidas. Vá entender.

O fato é que tenho achado as pessoas muito crispadas, rilhando os dentes, tensas, buscando briga, agressivas, de mal com a vida. O que está acontecendo com o meu país, o país de Stanislaw Ponte Preta, Zé Trindade, Oscarito e, sobretudo, esse grande humorista, o maior de todos, que é o homem anônimo, o homem da rua que sabe rir dos outros e de si mesmo?

Enfim, é isso. Desejem-me boa viagem, e até por aí.

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