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Cada época com as suas lendas

Luiz Zanin Oricchio

11 de dezembro de 2007 | 16h25

O pequeno público presente para ver o baile que os Craques do Brasileirão aplicaram na seleção olímpica dá a medida do grau de interesse desse jogo. Aliás, o próprio nome de um dos times merece ser questionado. Craques do Brasileirão? Quem são eles? Certo, havia bons jogadores em campo, e em ambos os times. Mas, craque? Sou do tempo em que se guardava essa palavra na gaveta para usar apenas quando se falasse de jogadores excepcionais, daqueles que desequilibram jogos, que nem precisam jogar bem para causar calafrios na torcida adversária. Apontem para mim um jogador nessas condições em campo no Engenhão.

Eu mesmo acabei assistindo à partida porque queria ver Pato, esse moleque expatriado de forma tão precoce que ainda nem pôde estrear em seu novo clube, o Milan, por ser menor de idade. Mas o menino pouco apareceu em campo e acabei me entediando. Na verdade, o jogo não teve qualquer significado. Nem o resultado, 3 a 0 para os “Craques”, quer dizer grande coisa, apesar de já haver catastrofistas prevendo mau futuro para a seleção na Olimpíada de Pequim. Ora, o time que vai à China não será esse, mas outro, que incorpora os três jogadores maiores de 23 anos permitidos e mais os que atuam na Europa. Daí, qual o problema? Era jogo festivo mesmo, e jogo festivo tende a ser chato à beça, com motivação baixa. O torcedor em geral percebe isso e não vai. Mesmo porque não havia craques em campo. Não no sentido antiquado da palavra.

E é melhor ir se acostumando. Entre um amistoso e outro, esse vai ser o nosso pão de cada dia futebolístico até que comecem os campeonatos regionais de 2008. Não, dirá o otimista, existem os jogos da Europa e também o Mundial Interclubes. E eu responderei: e daí? O que tenho eu com a Europa? E quando o Mundial chegar à decisão, quero ver Boca x Milan, e para torcer pelo Boca porque torço sempre contra o futebol multinacional dos clubes ricos. Mas antes? Ver o quê? Sepahan x Urawa? Levar a sério o Étoile Sahel, da Tunísia, só porque eliminou o Pachuca do México? Estou fora.

E, por estar fora, vou me distraindo com o esporte favorito da entressafra – o troca-troca de jogadores e técnicos entre os clubes. Como não existem lá grandes jogadores para ganhar as manchetes dos jornais, são os “professores” que têm atraído mais a atenção. Ganham salários milionários e vivem requisitados como astros pop. Merecem ? Não sei. Só sei que existe a convicção, entre dirigentes e também entre as torcidas, de que, em meio à mediocridade geral, são eles que fazem a diferença. Não sei até que ponto isso corresponde à realidade.

Os leitores mais experientes vão se lembrar de um tempo em que os professores eram tidos quase como peças secundárias, a ponto de às vezes serem vítimas de injustiças históricas. Diziam que Vicente Feola dormia no banco e nem sabia de cor a escalação do time. Também se falava que Lula, Luis Alonso Perez, que dirigiu o Santos por 13 anos na fase mais vitoriosa do clube, jogava as camisas para o alto no vestiário e escalava quem as pegasse.

Lendas, claro. Possíveis numa época em que os treinadores não eram tidos como magos, ou capazes de, sozinhos, extrair resultados de times recheados de pernas-de-pau. Agora vemos o técnico como um ser todo-poderoso, alquimista das táticas e estratégias, a estrela maior do elenco. Cada época com sua lenda.

(Esportes, Coluna Boleiros, 11/12/07)

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