”Cabra” ata os fios soltos da História
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”Cabra” ata os fios soltos da História

Luiz Zanin Oricchio

31 de março de 2012 | 10h48

 

O evento mais importante do 17.º É Tudo Verdade está marcado para hoje, na Cinemateca Brasileira, onde será exibida a cópia restaurada de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, às 14 h. Após a sessão, haverá debate com Coutinho, os restauradores Patrícia di Filippi e Lauro Escorel, e o cineasta Zelito Viana, produtor da obra.

Por mais vezes que você tenha visto Cabra Marcado para Morrer, jamais o viu nas condições perfeitas em que será exibido. A cópia é resultado de um formidável trabalho de restauração (Leia abaixo o depoimento de Lauro Escorel), que deixou como novo um filme feito em condições difíceis e cujo percurso acidentado o tornou ainda mais precário.

E, sim, há o filme em si, já visto por algumas gerações de admiradores, que se tornou, no imaginário do cinema brasileiro, sua obra documental máxima, uma espécie de “clássico dos clássicos”. Tanta reputação talvez sirva para coroar um trabalho, mas, paradoxalmente, pode embotar a sua recepção pelo efeito retrógrado da reverência. Por isso também será interessante ouvir o que Coutinho, após ter atingido o cume com o intimista Jogo de Cena, tem a dizer sobre essa obra densamente política.

A história da filmagem de Cabra daria um épico. Começa por reconstituir o assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira, usando personagens reais na filmagem, inclusive a viúva de João Pedro, Dona Elizabeth Teixeira. Com o golpe de 1964, as filmagens são interrompidas, os integrantes da equipe fogem e Elizabeth desaparece. Dezessete anos depois, os negativos são reencontrados, a filmagem é retomada e Coutinho vai atrás dos personagens de outrora, descobrindo Dona Elizabeth no Rio Grande do Norte, sob outro nome. O filme é ato de resgate de uma saga política interrompida e de uma vida dilacerada pela voragem da História. Comovente. Lúcido. Indispensável.

Depoimento de Lauro Escorel sobre a restauração da obra:

“Cabra Marcado para Morrer foi restaurado  pela equipe da  Cinemateca Brasileira  com supervisão técnica  da Patricia di Filipi e minha .

O trabalho foi feito na resolução de 2K  e teve como principal desafio  lidar com a diferença existente entre os  muitos materiais  que compõem o filme .

Originalmente o filme foi feito em 16 mm e foi ampliado para 35mm quando do seu lançamento comercial  . Neste processo materiais de 35mm  foram reduzidos para 16 e em seguida voltaram a ser ampliados .  Estas varias gerações  fizeram com que houvesse  perda significativa na qualidade  técnica das imagens  do filme.

Ao entendermos isso, tomamos  a decisão de pesquisar  a existência dos materiais originais . Uma vez localizados  os utilizamos como matrizes para  remontar  filme digitalmente  e a partir desta nova matriz  fazer o restauro  digital . Desta forma  conseguimos  devolver ao filme a  qualidade fotográfica que ele tinha e que  havia se perdido no  processamento  precário   dos nossos velhos laboratórios .

O processo digital me deu especial satisfação por me permitir devolver às imagens em preto e branco feitas por Fernando Duarte para o filme de 1964  todo seu esplendor . Seu domínio  dos  tons  de cinza  dentro da modéstia daquela  produção do CPC   é admirável  . Vale a pena rever o filme nesta sua nova roupagem. “

 

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