Bruna Surfistinha: viés moralista por trás da aparente liberalidade?
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Bruna Surfistinha: viés moralista por trás da aparente liberalidade?

Luiz Zanin Oricchio

25 de fevereiro de 2011 | 09h43

Sem trocadilho: assistir a Bruna Surfistinha pode ser um bom programa? É o que deve estar se perguntando o espectador, curioso com essa adaptação do livro O Doce Veneno do Escorpião, de Raquel Pacheco, a Surfistinha da vida real. Quem a dirige é o estreante em cinema Marcus Baldini, atuante, até agora, no mercado publicitário.

Como até os postes de iluminação do Baixo Augusta sabem, Bruna Surfistinha é o nom de guerre da garota de classe média que deixa a casa dos pais para, literalmente, fazer a vida. A certa altura da carreira, resolve contar suas experiências num blog que, como se poderia prever, bombou. Bombou, talvez pela capacidade narrativa da blogueira, ou, mais provavelmente, pela curiosidade despertada por esse diário ilustrado de uma profissional do sexo. A internet era também usada para marcar os programas, e esse uso esperto da web fez de Bruna a prostituta mais famosa do País, como sua personagem, defendida por Deborah Secco, diz, alto e bom som, a certa altura do campeonato.

O problema de Bruna Surfistinha, o filme, era ficar entre duas exigências contraditórias. Pela natureza da história, não tinha muito sentido fazê-la de maneira pudica. De modo que inclui muitas cenas de sexo, embora nenhuma explícita. É sexo, digamos, “artístico”. De outra, não poderia passar da censura até 16 anos, pois excluiria o público adolescente que, julga-se, é o que decide do sucesso ou do fracasso de uma produção. Além de economizar no sexo visual, a história teria de se prevenir de ser julgada uma apologia da prostituição. Assim, encerra um viés moralista em sua aparente liberalidade.
De que maneira? A trajetória de Bruna é descrita, de forma meio arrítmica, com as suas fases clássicas: iniciação, sucesso, apogeu, desregramentos e declínio. Depois, o balanço de vida e o ponto de equilíbrio final, com a volta ao redil da normalidade e da monogamia.

É o repouso da guerreira, por assim dizer. No fundo, a trajetória da Surfistinha não difere muito da de um pop star ou de um jogador de futebol. O esquema, pelo menos, é o mesmo. E também ela se enquadra no mesmo sistema das celebridades contemporâneas, sem vida privada e turbinadas pela superexposição na web.

Daí se vê o potencial que teria uma história dessa natureza, não fosse a opção por torná-la superficial como um pires. É um filme que se quer explicitamente comercial, como, aliás, andaram dizendo seus responsáveis em quantas entrevistas dessem. Isso significa que precisavam se ajustar a uma média suposta de inteligibilidade juvenil, que não tolera qualquer esforço de compreensão, ambiguidades, ou muitas arestas morais. Mesmo assim, Bruna Surfistinha não é mau filme. Poderia ser bem melhor, caso tivesse alguma ambição além do faturamento.

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