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Bróder

Luiz Zanin Oricchio

21 Abril 2011 | 08h27

Há alguma coisa de diferente em Bróder, de Jeferson De e precisamos ter sensibilidade para o percebermos. Ok, à primeira vista estamos de novo na periferia de São Paulo, com personagens que tentam driblar as condições desfavoráveis e viver da maneira a mais decente possível. Mas, desta vez, existe um olhar novo, cheio de frescor, que coloca o filme em outro patamar, para além das suas possíveis limitações.

Os tais personagens – os principais, pelo menos – são três amigos de infância, Jaiminho (Jonathan Haagensen), Pibe (Silvio Guindane) e Macu (Caio Blat), que vivem de maneiras muito diferentes no presente. Jaiminho tornou-se jogador de sucesso, atua na Espanha e espera ser convocado para a seleção brasileira; Pibe formou-se em direito e tenta iniciar a carreira a duras penas; Macu vive na fronteira do mundo do crime. Ou seja, um é rico, em via de se tornar milionário; o outro é remediado; e o terceiro é um pobre diabo, de vida complicada e companhias mais do que suspeitas.

A novidade, como se disse, está no tipo de olhar que é lançado a esses personagens. Não é paternalista e nem atenua conflitos. Constrói um retrato complexo da periferia paulistana, no qual a violência vive presente, mas não sob a forma de um determinismo trágico. A esperança também faz parte do modo de vida das pessoas, e não de uma maneira piegas. Ou seja, há um rigor de visão, que não concede nem ao obrigatório banho de sangue do “gênero” favela movie e nem entra no bom-mocismo do filme-ONG. Evita essas duas armadilhas.

Bróder respira a sinceridade de quem de fato mergulhou naquele mundo e pode entendê-lo. Sem preconceitos. Com ternura e também com rigor. Muito do resultado foi obtido, por certo, pela imersão de Jeferson De e equipe na comunidade do Capão Redondo, onde a história é ambientada. Caio Blat é um exemplo: embora branco, vira um autêntico “negão” em sua caracterização de Macu. Veste a pele do personagem. O mesmo empenho pode ser notado no resto do elenco, incluindo a mãe (Cássia Kis) e o pai (Ailton Graça), formando uma família interracial na qual os conflitos, e também a ternura se exprimem.

Projetos como Bróder e outros, como Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos (vários diretores), são sintomas de que algo está acontecendo no às vezes monótono audiovisual brasileiro. A periferia do sistema econômico, antes pintada por artistas oriundos da classe média (como no tempo do Cinema Novo), agora se retrata a si mesma. Começam a surgir obras de artistas cuja sensibilidade foi moldada nessa mesma periferia e agora começam a colocá-la na tela, livres do olhar muitas vezes estereotipado (quando não preconceituoso) com que antes era retratada. Esses filmes representam a inversão de uma perspectiva que data de pelo menos 50 anos de história cultural no Brasil. Não é pouca coisa.