Brincante, um ponto de vista brasileiro, e descomplexado
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Brincante, um ponto de vista brasileiro, e descomplexado

Luiz Zanin Oricchio

05 Dezembro 2014 | 08h04

Antonio Nóbrega

Antonio Nóbrega

 

Brincante não é um filme sobre Antonio Nóbrega, mas com Antonio Nóbrega. A opção de Walter Carvalho faz toda a diferença. Em princípio, não há nenhum problema em fazer um documentário contando a trajetória de um artista, entrevistando-o e ouvindo aqueles que com ele convivem ou trabalham.

Mas esta não foi a opção do diretor. Ele preferiu centrar-se na obra do músico-dançarino-compositor-ator e etc e captar a essência da sua arte. A melhor maneira foi encenar essa trajetória num circo e recuperar o caráter ambulante de uma inspiração artística que tem muito a ver com a antiga commedia dell’arte. A ação é conduzida pelos personagens Sidurino (Nóbrega) e Rosalina (Rosane Almeida, sua mulher), das peças  Brincante e Segundas Histórias.

O que bate na tela é uma explosão em cores e sons da cultura popular brasileira, mas que jamais cede à tentação do folclórico. Pelo contrário, seguindo a inspiração de Antonio Nóbrega, o filme bota cultura erudita e cultura popular em situação de diálogo, com o circo mambembe encenando Shakespeare e evocando o maracatu. Esse diálogo é fiel à inspiração de Nóbrega, uma herança da influência sempre presente de Ariano Suassuna (1927-2014).

A viagem pelo Brasil esculpe-se num formato híbrido entre a ficção e documentário. Não sendo nenhum dos dois em estado puro, Brincante guarda características de um e de outro. Segue artistas, que são assim mesmo na chamada “vida real”, mas que, no filme, reinventam-se a si mesmos através das peças que encenam e de seus personagens. Tudo é real. Tudo é invenção.

Brincante é visualmente muito bonito, como sempre se espera de um trabalho de Walter Carvalho. Mas não se pode esquecer não se trata de uma beleza de superfície, mas que traz uma reflexão muito sólida sobre a cultura brasileira. Itinerante, o filme pretende lançar esse olhar abrangente sobre o Brasil e como ele é visto por uma dimensão artística. Este é ponto-chave. A cultura nacional como lente capaz de enriquecer e decodificar o País, sem pregar qualquer tipo de isolamento. Pelo contrário, colocando-se em relevo diante de suas influências e diálogos e, por isso mesmo, assumindo-se como proposta universal. Brincante é um ponto de vista brasileiro, descomplexado.