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Bravura Indômita, dos Coen

Luiz Zanin Oricchio

12 de fevereiro de 2011 | 19h45

Menos que um remake do filme de 1969, Bravura Indômita, dos irmãos Coen, é uma leitura mais cerrada, mais rente ao texto do romance de Charles Portis, publicado em 1968 (e agora lançado no Brasil pela Alfaguara com o cartaz do novo filme na capa).

Basicamente, trata-se da mesma história filmada por Hathaway em 1969, um ano apenas após o lançamento do livro. Mas há diferenças importantes, em especial no epílogo, quando os Coen aproveitam de forma cinematográfica as excepcionais qualidades do texto de Portis. Aliás, eles são muito bons nisso: souberam tirar o sumo da literatura de Cormac McCarthy em Onde os Fracos Não Têm Vez, com o qual venceram o Oscar de 2008.
Críticos espertos já notaram diferenças sutis entre os dois filmes. Algumas cenas noturnas viraram diurnas e vice-versa. O tapa-olho, que estava na vista esquerda de John Wayne passa para a vista direita de Jeff Bridges. E assim por diante. Sinais. Que podem dizer muito ou coisa alguma porque, como se sabe, Ethan e Joel Coen são dois notórios brincalhões.

Jeff Bridges assume o personagem do justiceiro Rooster Cogburn, que coubera a Wayne no primeiro filme. Ele é contratado pela garota Mattie Ross para vingar a morte do pai, assassinado por certo Tom Chaney (Josh Brolin) de maneira covarde. Acontece que Chaney fugira para território indígena, onde a dupla o persegue. A eles junta-se o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon), que será o extremo oposto de Rooster. Este é um velho beberrão, desbocado e impaciente. LaBoeuf é um dândi do oeste, sério e sedutor.
O espectador verá que parte do encanto do filme está nos diálogos afiados entre o irascível Rooster e a surpreendente garota Mattie (a estreante Haylee Steinfeld), dona de cabeça atrevida, raciocínio rápido e determinação de uma mula. No livro, ela é a narradora em 1ª pessoa. No filme, esse foco narrativo se dilui um pouco para ser restabelecido no desfecho, quando então ela se assume como narradora.

Outra parte significativa da sedução virá da filmagem enxuta e, desta vez, quase despida da famosa ironia dos Coen, traço de estilo que não passa pela garganta de críticos irritadiços. Há humor em meio à tragédia e aspereza, mas os Coen abdicam de seu viés estilístico para melhor se conformarem à inspiração de Portis. O filme ganha com isso. Dessa secura de linguagem, da própria aridez dos personagens, emergem migalhas de sentimentos que nascem entre eles ao longo da aventura. Até por serem raras e discretas, essas pepitas afetivas adquirem valor especial. Era assim, parecem-nos dizer os personagens, naquela época, 1880, naquela região e entre aquela gente. Integridade, poucas e certeiras palavras, lealdade sem qualquer ostentação, sentimentos sólidos porém camuflados pelo pudor. O melhor da América. Por isso, e por alguns outros motivos, um crítico como André Bazin podia escrever que o western era a melhor expressão da mitologia americana.

Discretos e sábios, os Coen fazem jus ao mito.

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