Brasília 2021: ‘Acaso’, outros filmes e um pitaco sobre os debates
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Brasília 2021: ‘Acaso’, outros filmes e um pitaco sobre os debates

Luiz Zanin Oricchio

12 de dezembro de 2021 | 20h54

 

Neste comentário vou acumular alguns filmes vistos nos dois últimos dias. 

Para início de conversa, repito que o longa que mais me impactou até agora foi Lavra, de Lucas Bambozzi. Já escrevi sobre ele e me parece o de temática mais urgente, vazada em linguagem cinematográfica inspirada e consistente. 

Entre os curtas, meu favorito até aqui continua a ser Chão de Fábrica, de Nina Kopko, que venceu em sua categoria no Cine Ceará, onde o vi pela primeira vez. Resiste bem à revisão. Sim, os festivais trombam, acumulam-se e repetem filmes. A Chão de Fábrica, acrescento na lista dos (meus) favoritos Cantareira, de Rodrigo Ribeyro, que não havia ainda visto e me pareceu muito interessante, assim como Ocupagem, de Joel Pizzini, sobre o qual também já escrevi neste espaço. 

Outro dos longas concorrentes é Acaso, de Luis Jungmann Girafa, do DF. Também é, em sua categoria, o mais ousado do ponto de vista da construção cinematográfica. Bastante improvisado, reúne a turma do meio cultural brasiliense em cenas de rua, no caso a W3, um eixo viário da Capital. Os diálogos são livres e improvisados. Como se trata de gente inteligente, acaba saindo coisa boa. 

Falando do filme, Girafa diz que se aproveita de uma dica que lhe foi passada muitos anos atrás pelo cineasta Carlos Reichenbach. No processo de composição de personagens, Carlão dizia ao elenco para imaginar que cada um deles tivesse um segredo inconfessável e guardado a sete chaves. A possibilidade de desvendar esse segredo acabava criando uma tensão que, em tese, se mostra benéfica para a dramaturgia. De qualquer forma, só para efeito de exemplo, um dos personagens de Acaso imagina ter cometido um crime, e toda sua fala é para narrar uma história que contém essa possibilidade e sua explicação.  

Se Acaso adota essa forma livre, e lúdica, pode-se dizer que Ela e Eu, de Gustavo Rosa de Moura, o outro longa em competição, situa-se em extremo oposto. Nele, tudo parece estudado e controlado, num roteiro burilado, feito para esculpir um drama sem incômodos e com personagens adequados ao espírito do tempo, evitando todo possível atrito, com quem quer que seja. 

A ideia de fundo não é má. Após um parto trabalhoso, uma mulher, Bia (Andréa Beltrão) entra em coma e permanece 20 anos em estado vegetativo. Nesse tempo, o marido (Eduardo Moscovis) casou-se com outra mulher (Mariana Lima), a filha cresceu e tornou-se uma jovem estudante de medicina, com uma namorada que frequenta sua casa. Também há na casa uma empregada ótima, vivida por Karine Teles, uma pessoa de alto astral. Todos se amam, são evoluídos e cuidam da doente com desvelo. Até o dia em que ela resolve acordar. Em sua volta à vida coloca em xeque o equilíbrio familiar estruturado em torno da sua doença. 

O filme é bem feito, mas não ousa. Os conflitos, quando aparecem, logo são resolvidos e não deixam marcas. A ideia de fundo parece ser a normalização de questões ainda polêmicas na sociedade brasileira, resolvidas através de uma família perfeita, ainda que atingida por um drama. Não custa imaginar o que um Bergman faria com uma história dessas. Ou, para deixar o sueco em paz na eternidade, o que não faria com ela a verve de um Almodóvar, influência assumida do diretor?

Ainda a destacar, entre os longas, o bonito documentário De Onde Viemos, para Onde Vamos, de Goiás. Dirigido por Rochane Torres, retrata os conflitos entre tradição e modernidade no povo Iny, que vive na Aldeia de Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal, em Tocantins. O registro é delicado e mostra a queda de prestígio dos defensores das tradições. Enquanto isso, os jovens ligam-se mais no futebol, na tecnologia e na modernidade. Em ritmo tranquilo, o doc flui como um rio. Mas de águas pouco profundas.  

Dos debates aos filmes

Os debates, na verdade, não o são. A palavra “debate” implica troca de ideias, sobretudo contraditórias. Inclui o desafio da administração de fricções de modo que a leitura de um filme possa se enriquecer pelo embate civilizado de divergências. Da maneira como vêm sendo conduzidos pelos festivais, os debates, na verdade, tornaram-se mornas entrevistas coletivas, nas quais muito se elogia e nada se questiona. 

Não se trata de um problema de Brasília, mas dos festivais brasileiros de maneira geral. Há que se admitir que os tempos não são propícios a controvérsias e menos ainda civilizadas. Mesmo um bom dia ou um até logo podem deixar pessoas ofendidas e furiosas. Então está todo mundo pisando em ovos e medindo palavras para não correr o risco de receber uma resposta agressiva (ou algo pior) e ser cancelado em redes sociais. Essa postura defensiva atinge as obras e o diálogo sobre elas. Não sei se isso é bom para a saúde da inteligência brasileira. Acho que não, mas é o que temos para o momento. 

 

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