Brasília 2019: O Mês que Não Terminou provoca polêmica no festival
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Brasília 2019: O Mês que Não Terminou provoca polêmica no festival

Luiz Zanin Oricchio

27 de novembro de 2019 | 13h03

BRASÍLIA – Primeira grande polêmica do Festival de Brasília 2019: o documentário O Mês que Não Terminou, de Francisco Bosco e Raul Mourão, provocou manifestações desencontradas durante a sua exibição no Cine Brasília. Houve vaias e manifestações do público durante a sessão e, no final, vaias misturadas a aplausos. O debate também foi quente, com o diretor sendo questionado a respeito de suas opções estéticas e políticas. Tudo em plano civilizado, mas, mesmo assim, com a temperatura subindo vez por outra. E é bom que assim seja. 

Enfim, do que trata esse filme? Ele é derivado de um ensaio de Bosco, publicado em junho de 2018, no qual ele procura entender como um movimento de origem libertária havia sido apropriado pelo seu contrário e aberto caminho para as novas direitas brasileiras. Na ocasião Bolsonaro ainda não havia sido eleito, mas esta era uma consequência lógica do que estava acontecendo no país. 

O filme segue a linha do artigo e seu texto, com desdobramentos, se articula numa narrativa em off, na voz da atriz Fernanda Torres. Várias personalidades, de diferentes posições políticas, são chamadas a depor. As imagens, além das dos depoentes, incorporam diversas obras de arte, que procuram ser alusivas ao que está sendo debatido. 

Os principais temas – e traumas – do país são mobilizados no “enredo”, que procura responder a diversas perguntas. Uma das mais intrigantes: por que um país que, na época, ainda não sofria as consequências da crise econômica, se levanta em gigantescas manifestações de rua, com direito a quebra-quebras e contestação aos grandes eventos esportivos que se realizariam no ano seguinte (Copa do Mundo) e em 2016 (Olimpíadas)?

Hipóteses são levantadas, como a de que o ciclo da esquerda no poder estava chegando ao fim. Ou que os tempos áureos dos preços altos das commodities já haviam passado e não seria mais possível financiar os programas sociais do PT. Ou que classes sociais que não se sentiam contempladas saíam às ruas para protestar e botar para quebrar. Como esse impulso de início progressista foi parar nas mãos regressivas da direita, é algo que fica por compreender. 

Nesse sentido, o filme não traz avanço de compreensão. É sintomático que, depois de ouvir economistas, historiadores e cientistas sociais, dê a palavra a psicanalistas (Maria Rita Kehl e Tales Ab’saber) para entender o imbróglio em que nos metemos. Mas, mesmo com a ajuda desses profissionais, sentimos uma espécie de insatisfação pela ausência de respostas mais conclusivas. 

Vamos convir: junho de 2013 é ainda um enigma. Como enigmática é esta virada do país à extrema-direita, como se parte da população tivesse sofrido alguma mutação genética ou sido abduzida e substituída por alienígenas. 

Louve-se o esforço de compreensão de Francisco Bosco, que se declara um liberal de esquerda e preocupado com a polarização que trava o diálogo entre os diferentes. 

No entanto, o filme tem vários problemas. Um deles, a meu ver, o choque de narrativas. Se o elenco convocado a depor mostra-se polifônico, a narrativa em off acaba por impor a sua “verdade”. Se a realidade é fragmentada, essa narração (lembremos, herdeira do ensaio original do diretor) passa a ilusão de um todo lógico, em que os nexos causais entre os fatos parecem bem estabelecidos. 

Nesse sentido, o filme é esquizofrênico, com o ensaísta se sobrepondo ao cineasta. E, se aborda questões interessantes, e que estimulam nossa reflexão, não produz um aumento de compreensão dos fatos que aborda. Podemos conceder: é difícil mesmo entender esse caos chamado Brasil. Mesmo assim, esperava-se mais. 

Por exemplo, senti falta de os psicanalistas abordarem a questão com as ferramentas da psicopatologia, porque me parece que este é o domínio que pode iluminar alguma coisa do Brasil contemporâneo. O debate econômico, interno à obra, inclina-se para o lado liberal (representado por Samuel Pessôa e Marcos Lisboa) mais que para uma visão alternativa da economia (Laura Carvalho). A leitura predominante do impeachment de Dilma inclina-se por sua legalidade, em detrimento da versão de golpe adotada pela esquerda. Houve vaias quando Marcos Nobre o definiu com o neologismo “parlamentada”, para evitar a palavra “golpe” ou a expressão “golpe parlamentar”. Bem, somos especialistas em eufemismos e estes nem sempre ajudam a entender as coisas tais como elas são. 

Curtas

Parabéns a Você, de Andréia Kaláboa (PR). O filme ambienta-se em Prudentópolis, cidade paranaense de colonização ucraniana. A garota Yulia vive com os pais agricultores e sonha com sua festa de aniversário. Que, parece, será adiada pela morte de um primo de sua mãe. Delicado, o curta trabalha com a assimilação da ideia de morte por parte de uma criança. 

Pelano!, de Christina Mariani e Calebe Lopes, é uma espécie de ficção científica pauvre, mas rica de ideias. Quando a camada de ozônio se rompe sobre a Bahia, o calor torna-se insuportável e a personagem Raquel sente que vai derreter. Trabalho criativo. 

Mostra Brasília

Dulcina, de Glória Teixeira, recebeu a maior ovação até agora no festival. Reconstitui a vida da atriz e diretora de teatro Dulcina de Moraes (1908-1996), através de depoimentos, imagens de arquivo e reconstituição com atrizes. Um tanto convencional na forma, o filme tem o mérito de traçar uma trajetória bastante completa de uma das grandes figuras da cidade. Fluminense de Valença, Dulcina já estava em meio a uma carreira vitoriosa quando decidiu se mudar para a recém-fundada nova capital do país e começar tudo de novo. Fundou sua escola e teatro e deixou marcas profundas na cultura brasiliense. Os aplausos foram ao filme, mas sobretudo a ela.