Brasília 2019: Fernando Pessoa na alma e na música
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Brasília 2019: Fernando Pessoa na alma e na música

Luiz Zanin Oricchio

28 de novembro de 2019 | 14h07

 

BRASÍLIA – André Luiz de Oliveira, cineasta baiano radicado em Brasília, levou 30 anos, de 1985 a 2015, para musicar e gravar os 44 poemas de Fernando Pessoa contidos no livro Mensagem. Aliás, foi o único livro que o poeta português publicou em vida. O filme que trata do amor do cineasta (e músico) pelo escritor foi dirigido por sua filha Rama de Oliveira e se chama Mito e Música – a Mensagem de Fernando Pessoa

André Luiz é diretor de filmes famosos como Meteorango Kid, o herói intergalático (1969) e Loucos por Cinema (1995), entre outros. Sua faceta musical é menos conhecida, pelo menos fora de Brasília, seu habitat há muitos anos. 

A ideia de musicar os poemas de Pessoa lhe veio há muito tempo, pelo efeito de profundidade que essa leitura proporciona. Ler Pessoa é uma imersão no abismo. Os poemas de Mensagem falam do Portugal de Dom Sebastião, messiânico em seu desejo de conquista. O Portugal que espera pela volta de Sebastião, desaparecido na batalha de Alcácer Kibir (1578), raiz mítica da nostalgia, do saudosismo melancólico, com som de fado. As palavras de Pessoa aliam esses afetos ao sentimento do místico. 

Incumbida de filmar a trajetória poético-musical do pai, Rama o acompanha em viagem a Portugal, aos estúdios de gravação, em conversa com amigos e parceiros, como Gilberto Gil e Caetano Veloso. Fala também com especialistas em Pessoa, do Brasil e de Portugal, conversa com artistas e cantores e cantoras que interpretam os versos de Pessoa imantados pela música de André Luiz. E, sobretudo, fala com o próprio pai, estimulando-o a explicar seu continuado entusiasmo por esse poeta, quase inédito em vida, e que se tornou um ícone da poesia mundial apenas depois de sua morte, ocorrida em 1935.  

Muito bem filmado, e com originalidade, o documentário evita o ranço dos longos depoimentos, porque os entremeia com muita música e muita poesia. As imagens, também poéticas, fazem do filme de 96 minutos um exercício de pura beleza. Os muito céticos que me perdoem, mas, em especial neste momento, beleza é fundamental. 

Competitiva nacional 

Loop, de Bruno Bini (MT), dialoga com um velho tema do cinema (e mais ainda da literatura sci-fi), a viagem no tempo. Basta citar filmes como o clássico popular A Máquina do Tempo e o pop De Volta para o Futuro para lembrar de como o tema pode ser forte. 

Na história, Daniel é um rapaz de QI acima de 170, fanático por viagens no tempo e obcecado em viabilizá-las. Confrontado com uma tragédia – a morte de uma namorada – tenta voltar ao passado para modificá-lo e trazer a moça de volta. O roteiro é mirabolante, mesmo para os padrões de livre invenção da ficção científica. Esta precisa ter uma verossimilhança interna para funcionar. 

Apesar de tecnicamente bem-feito, o filme me pareceu muito fraco para ter sido selecionado entre cerca de 180 concorrentes para figurar numa lista seleta de sete competidores no mais tradicional festival de cinema do país. 

No debate, Loop foi massacrado por diversas questões. Criticaram-no pela visão complacente com o feminicídio, por ter poucas mulheres em sua equipe técnica e por não ter atores negros no elenco. Foi criticado também pela formatação caricata de uma das personagens femininas. O diretor defendeu-se como pôde – isto é, muito mal. Poderia ter dito, simplesmente, que fez o filme que queria fazer e que os outros fizessem os seus. Mas preferiu cair na defensiva. 

Outro participante do debate questionou a presença de um filme “muito comercial” na disputa dos Candangos, o que motivou respostas de dois dos curadores do Festival de Brasília, Ana Karina de Carvalho e Marcus Ligocki. Basicamente argumentaram em favor da diversidade, de ir além dos limites dos chamados “filmes de festival” e incluir os que pudessem ter maior comunicação com o público. 

De qualquer forma, pintou um climão na sala de debates, reproduzindo o que já acontecera na véspera, durante a discussão de O Mês que Não Terminou, de Francisco Bosco. Com a diferença que o diretor de Loop passou o tempo todo tentando contemporizar com o grupo crítico em relação ao seu trabalho, ao passo que Bosco teve a firmeza de defender sua obra, mesmo admitindo certas limitações da mesma.  

Curtas 

Dois bonitos curtas-metragens no programa de ontem, refletindo sobre a solidariedade feminina, que atende pelo nome de sororidade. 

Angela, de Marília Nogueira (MG) mostra a personagem-título interpretada pela grande Teuda Bara. Angela vive sozinha, às voltas com seus exames, receitas e remédios. É a hipocondríaca padrão. Até o dia em que uma amiga, Sueli, mostra que a vida pode ser algo mais que a espera por doenças que não existem. O desfecho é felicidade só. 

, de Julia Zakia e Ana Flávia Cavalcanti, põe em cena Val, que vive com duas filhas em uma pequena casa. Uma noite, batem à porta de Val e o funcionário do mercadinho do bairro pede que ela guarde uma misteriosa carga em seu quintal. O que seria aquela carga lá depositada? O desenvolvimento leva a uma quebra de expectativas criadas sobre o cotidiano da periferia. Desfaz clichês. Termina por uma grande celebração, para mostrar que a luta contra os preconceitos é dura, mas também pode ser levada com alegria, convívio e amizade.

 

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