Brasília 2019: Febre na selva (e na cidade)
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Brasília 2019: Febre na selva (e na cidade)

Luiz Zanin Oricchio

25 de novembro de 2019 | 14h08

Debate com a equipe de A Febre, de Maya Da-Rin (com o microfone)

BRASÍLIA – A segunda noite de competição teve um repique político da noite de abertura, com o produtor Leonardo Mecchi (de A Febre) lendo o manifesto de entidades brasilienses, cortado no início do festival. Para lembrar: na cerimônia de abertura, um ator subiu ao palco para ler o documento, um segurança tentou impedi-lo e, em seguida, seu microfone teve o som cortado. O gesto da equipe de A Febre, portanto, restabelece na íntegra a manifestação interrompida por um surto de autoritarismo.

O próprio filme, A Febre, é também um ato político – e estético – surgido no momento em que as culturas indígenas parecem mais ameaçadas do que nunca no Brasil. Conta uma história, ambientada no Amazonas, com elenco predominantemente indígena e diálogos em seu idioma. É um filme imersivo, e jamais faz dos povos indígenas seu “objeto” de estudo, mostrando-se profundamente respeitoso em relação à sua cultura.

Justino (Regis Myrupu), indígena de 45 anos, do povo Desana, trabalha como vigilante do porto de Manaus. Sua filha, Vanessa (Rosa Peixoto), enfermeira, prepara-se para estudar medicina em Brasília. Viúvo, pressionado por problemas no trabalho e antevendo a partida da filha, Justino passa a apresentar os sintomas de uma misteriosa febre, sem causa definida. Tem sonhos estranhos e conta ao neto lendas dos ancestrais. Recebe a visita do irmão que, ao contrário dele, decidiu permanecer na aldeia. 

Esse é o retrato de alguém dividido entre duas culturas. No entanto, Maya busca uma maneira não didática de expressar esse conflito. A estrutura é lacunar. Há saltos no tempo e no espaço, e uso frequente do recurso do hors champ – o fora de campo, em que o aquilo que não se vê tem tanta ou mais importância do que é mostrado na tela. Tal tipo de efeito se vale muito da montagem (Karen Akerman) e do desenho de som (Fellipe Schultz Mussel e Breno Furtado). E da fotografia, a cargo da uruguaia Bárbara Alvarez,  que trabalhou com Lucrecia Martel.

Não se trata aqui de aproximar essa obra muito original de algo mais conhecido, mas parece evidente um diálogo sutil com os filmes de Apichatpong Weerasethakul. O mistério das filmagens na selva, a coabitação do universo “racional” com aspectos míticos, do plano da vigília com o dos sonhos, tudo parece convergir para o estabelecimento de uma relação de estranheza com o espectador. 

Penso aqui na noção de “estranho” no sentido freudiano do termo, o “Unheimlich”, de grande valor estético ao estimular a capacidade imaginativa (isto é, ativa) de quem se posiciona diante de uma obra que não pode ser vista de forma passiva, mas pede a participação do público. Mesmo porque, trabalha com lacunas narrativas a serem preenchidas por quem sente necessidade de fechar um sentido. Ainda que provisório. 

Essa estrutura de linguagem me parece bastante coerente com o respeito que merece a abordagem de uma cultura alheia. Porque, apesar da participação ativa da comunidade na feitura da obra, ela continua a ser uma visão branca e europeísta sobre a cultura alheia. Como olhar para o Outro sem cair na armadilha etnocêntrica? Talvez preservando seu mistério, a estranheza (mais uma vez) que ela nos provoca e espanta. O valor do filme está em seu respeito ao mistério do Outro, ao seu tempo, seu ritmo, à sua espessura e, portanto, à sua integridade humana. 

Curtas

Caranguejo Rei, de Enock Carvalho e Matheus Farias mostra uma alegórica invasão de caranguejos numa Recife devastada pela especulação imobiliária. Um dos executivos de uma construtora, Eduardo (Tavinho Teixeira), sofre de uma estranha doença de pele, que induz modificações em seu corpo. Um filme interessante, que opta pelo fantástico para fazer uma crítica social e sofre alguns percalços em seu desenvolvimento. Não deixa de ter seu valor. 

Ari y Yo, de Adriana de Faria, é um interessante relato da experiência cubana da diretora, que estudou na Escola de San Antonio de los Baños. O filme vê Cuba pelos olhos da narradora, a garota cubana Arisley, habitante de Pueblo Textil, um povoado que parece fora do tempo, uma espécie de Macondo cubano. A espontaneidade, a graça narrativa, a visão original fazem a força desse trabalho, despretensioso apenas à primeira vista. 

  Boca de Ouro

O festival apresentou, fora de concurso, a nova versão da peça famosa de Nelson Rodrigues, adaptada para o cinema nos anos 1960 por Nelson Pereira dos Santos – e a quem o filme é dedicado. Daniel Filho, nesta nova leitura, opta por visão mais explícita da história do bicheiro (Marcos Palmeira), que mandou extrair todos os dentes para colocar uma dentadura de ouro na boca. A história é narrada em três versões diferentes por Guigui (Malu Mader), antiga amante do contraventor. Comparada à versão anterior, esta parece mais rasa, em especial pelo recurso dos efeitos sanguinolentos, que beiram o trash. Se é para revisitar uma obra consagrada, por que não modernizá-la, como foi feito há pouco com Beijo no Asfalto, também de Nelson Rodrigues?

 

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