Brasília 2019: Escolas sem sentido
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Brasília 2019: Escolas sem sentido

Luiz Zanin Oricchio

26 de novembro de 2019 | 12h34

BRASÍLIA – A temperatura política do festival permaneceu alta, mas não na competição principal e sim na Mostra Brasília, de produções locais, apresentada à tarde. 

Escolas sem Sentido, de Thiago Foresti, empolgou o público já na apresentação e foi ovacionado no final. Mostra uma escola secundária na qual um dos professores é hostilizado, em especial por uma das alunas que grava suas aulas e mostra o vídeo aos pais, conservadores. Estes se queixam ao diretor do colégio e exigem que o mestre “comunista” seja enquadrado. Isso porque o professor de História tem a ousadia de, em suas aulas, mencionar as grandes revoluções, e citar nomes como Karl Marx e Che Guevara. 

Bem construído, o filme conta ainda com uma inusitada narradora, uma jovem que se expressa em alemão e prepara um desfecho de impacto. Foi muito aplaudido no final, e seguido de manifestações contra o governo local e também contra Bolsonaro. Que eu saiba, é o primeiro filme crítico em relação às “escolas sem partido”. Mostra, de forma por assim dizer didática,  como o patrulhamento ideológico dos mestres pode levar à esterilização crítica das escolas – em prejuízo dos alunos. Pais reacionários, que apoiam medidas desse tipo estariam, assim, sem o saber, dando um tiro nos pés. Dos seus filhos. 

A mostra nacional prosseguiu com seu terceiro candidato, o longa Alice Jr., de Gil Baroni, do Paraná. Já havia visto esse filme no Festival de Vitória, no qual  pude comprovar sua capacidade de diálogo com o público. Revi-o ontem em Brasília e essa impressão foi reforçada. Alice Jr. divertiu demais a plateia durante a sessão e foi muito aplaudido no final. Atrás de mim havia uma pessoa rindo tanto que me lembrou a primeira vez em que assisti a Quanto mais Quente Melhor e Primeira Página, comédias clássicas de Billy Wilder. Em Brasília, Alice Jr.  reafirmou seu poder de comunicação, em especial com um público jovem, interessado na temática da transfobia, cerne da trama. 

Revisto, não mudou minha opinião. Transcrevo, então, o que já havia escrito: 

Alice é uma youtuber adolescente. Faz sucesso na rede e mora na praia de Boa Viagem, no Recife, com o pai. Razões profissionais os levam à mudança para uma pequena cidade no Sul do país. Alice, num local mais conservador, será confrontada com vários problemas, a começar pelo bullying na escola e o sentimento de inadequação social. 

A história do longa Alice Júnior, que poderia ser banal, ganha tom de originalidade pela maneira como é contada, com constantes intervenções gráficas, à maneira de emojis, memes e outros recursos da era da internet, que interagem com a narrativa. A fotografia é, de modo geral, clara e viva, embora evolua ao longo do desenvolvimento da narrativa. A ambientação torna-se um tanto kitsch e carregada, a atmosfera social é a de adolescentes ligados em seus smartphones full time. 

Mas o grande trunfo, sem dúvida, é a atriz que interpreta Alice, Anne Celestino Mota, cheia de graça, espirituosa e vivaz. Ela se adequa à perfeição àquele ambiente imagético proposto pelo filme. Ou, talvez, seja ela quem tenha determinado esse ambiente por seu tipo de personalidade extrovertida.  

“Queríamos fazer um filme político, mas que essa política viesse em camadas delicadas”, disse o diretor Gil Baroni no debate. A questão delicada é, de certa forma, a relação entre Alice e seu pai. Ela é totalmente apoiada, uma garota trans privilegiada, branca e bonita. Jean Genet (interpretado por Emmanuel Rosset ) é, para resumir, o pai que toda a trans sonharia ter. Suporte permanente, aberto, compreensivo, acolhedor e bastante ativo na proteção à filha. Há uma cena em que ele aciona por Skype a advogada para que esta enfrente a diretora da escola onde Alice Jr. está sendo discriminada. 

Há um detalhe. Num raro momento em que a questão da linguagem cinematográfica entrou em pauta no debate, o roteirista, Luiz Bertazzo, citou uma frase, cuja origem ele não soube precisar: “Quem domina a linguagem, domina o conteúdo”. Dessa forma, ele conta, precisou comprar um celular novo, baixar todos os apps usados pelos jovens e se familiarizar com o internetês. A ideia é que, se não incorporassem essa linguagem ao filme, ele falharia em seu projeto. Bem, compreendo isso. Também não sei quem falou ou escreveu a tal frase. Mas ela se parece muito com aquela, famosa e mais sintética, de Marshall Mcluhan, de antes da invenção da internet: “o meio é a mensagem”.  

Isso para dizer que, se Alice Júnior se beneficia muito da imersão nessa linguagem da web, ele também se recusa a fazer sua crítica. Entendo também a opção. Trata-se de seguir um período de vida de uma adolescente trans e sua luta para ser feliz e dar um passo em sua identificação sexual ao desejar algo tão singelo quanto o primeiro beijo. Uma busca afirmativa que, por um momento, esquece o contexto de luta em que estamos metidos e a dura realidade de sabermos que o Brasil é um dos países com maior número de assassinatos de pessoas transgênero. Mesmo na guerra, é preciso repousar – isso é compreensível e me parece bastante verdadeiro. Mas, em termos estéticos, limita o alcance da obra. Esta, a obra, não repousa. 

Enfim, Alice Júnior é uma fábula feliz, sabendo-se que toda felicidade deve enfrentar obstáculos até ser atingida.

Curtas

Cabeça de Rua, de Angélica Lourenço (MG), mostra o cotidiano de Célia, mulher guardadora e lavadora de carros, em BH, que consegue um trabalho fixo, de “carteira assinada”. Pretende passar o ponto para uma prima, mas algo não sai lá muito bem em seu primeiro dia de novo emprego. Uma boa narrativa, mas sem lá grandes consequências, o que é diferente de ter um desfecho lacunar. 

A Nave de Mané Socó, de Severino Dadá, é o registro cômico da clássica situação da pequena comunidade do interior assolada por extraterrestres. Em estilo naïf, à la Ed Wood, a nave espacial é construída com duas calotas de carro soldadas. O próprio diretor – um mitológico montador do cinema brasileiro – faz um dos papéis. Integrantes de sua família estão em outros, como o filho e a nora, esta abduzida pelos alienígenas. Até a netinha do diretor, recém-nascida, entra em cena. É divertido. No final da sessão, um gaiato gritou no cinema: “É melhor do que Bacurau!”, em alusão ao filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Calma. Não é para tanto.   

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