Brasília 2019: Emoção e razão em ‘O Tempo que Resta’
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Brasília 2019: Emoção e razão em ‘O Tempo que Resta’

Luiz Zanin Oricchio

29 de novembro de 2019 | 13h52

 

Osvalinda (Linda) com o marido

BRASÍLIA – Muita emoção ontem no Cine Brasília durante a exibição de O Tempo que Resta, de Thaís Borges. O documentário aborda a questão amazônica por um viés particular, através da história de duas mulheres valentes. Maria Ivete Bastos e Osvalinda Marcelino Pereira têm suas vidas ameaçadas pelas milícias madeireiras e fazendeiros da região. São duas mulheres de saúde frágil mas de almas muito fortes. Agricultoras, sustentam suas famílias e vivem, ou sobrevivem, com constantes ameaças às suas vidas. Uma delas, a líder comunitária Ivete, andou algum tempo sob proteção de escolta policial. 

A opção da jornalista e documentarista Thaís Borges foi pelo registro doméstico das mulheres, em seu trabalho e no convívio com suas famílias, vizinhos e companheiros de luta. O peso da violência paira o tempo todo sobre elas. A questão política é abordada nas entrelinhas. Mas em nenhum momento o filme soa como panfleto. Apenas nos leva – de maneira suave mas incisiva – para uma realidade que não é a nossa. E que conhecemos, mal e mal, por matérias de jornal ou de televisão. Não temos ideia precisa do que significa viver da agricultura artesanal em terras cobiçadas pelo grande capital madeireiro e da soja, e sob ameaça constante da pistolagem a serviço desses interesses. 

No entanto, em sua intimidade, essas mulheres mostram-se cheias de alegria em seu trabalho cotidiano e na relação com maridos que as apoiam em suas lutas. A vida é assim, feita de sofrimento e de felicidade. Muitas vezes as urgências políticas – em especial em nossos tempos duros – nos fazem esquecer essa incrível resistência psicológica do ser humano. 

Ivete e Osvalinda (Linda) não escondem toda a dificuldade de suas vidas. Seus depoimentos, no palco do Cine Brasília e, no dia seguinte, no debate do filme, comoveram profundamente a plateia. Pelo menos a parte normal da plateia, porque um dos membros da coordenação do festival chegou a gritar que parassem suas falas para que o filme fosse iniciado. Como um grupo na plateia o mandasse ficar quieto, reagiu com palavrões, segundo testemunhas. Habilidade política não parece ser muito a marca desta gestão, como se viu desde a sessão de abertura do festival com o episódio das vaias ao secretário de cultura e da maneira como ele reagiu a elas. 

Enfim, O Tempo que Resta me pareceu um belo documentário político, em tom justo, que comove e faz pensar, sem discursos panfletários ou longas entrevistas. Concentra-se no foco observacional dessas vidas difíceis e expõe, sem demagogia, essa faceta da tragédia brasileira, que não começou ontem, mas se agravou com a chegada ao poder de um governo de extrema-direita. Vidas humanas não são exatamente sua prioridade. 

Curtas 

Chico Mendes – um Legado a Defender (DF), de João Inácio, entra no pacote conceitual de uma noite dedicada à questão amazônica. Mais convencional na forma, lembra a história do líder seringueiro Chico Mendes, sua vida e seu assassinato, e seu legado para as próximas gerações. Não foge do tom institucional.

Marco (CE), de Sara Benvenuto volta às questões feministas e identitárias tão presentes nesta edição do festival. Conta a história de Isadora (Ana Luiza Rios), que decide voltar à sua cidade natal ao saber que o pai está doente. No regresso, confronta-se com as tensões familiares e sociais que a obrigaram a ir embora no passado. Bem construído, deixa algumas pontas soltas em seu enredo lacunar.  

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