Brasília 2018. No domingo em que Lula recebeu a faixa de FHC
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Brasília 2018. No domingo em que Lula recebeu a faixa de FHC

Na abertura do festival, homenagens e dois filmes bem recebidos pelo politizado público da mostra brasiliense

Luiz Zanin Oricchio

15 Setembro 2018 | 13h34

 

Os diretores Clara Linhart e Fellipe Barbosa e atriz Itala Nandi apresentam o filme Domingo

BRASÍLIA

Foi meio atrapalhada, mas bonita, a noite de abertura do 51° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. No Cine Brasília lotado, dois homens, Ismail Xavier e Walter Mello, receberam a Medalha Paulo Emilio Sales Gomes. E duas mulheres, Itala Nandi e Cristina Amaral, ganharam a Medalha Leila Diniz, recém-criada.

Walter Melo foi um dos criadores da Semana do Cinema Brasileiro, ao lado de Paulo Emilio, evento que gerou o Festival de Brasília. Ismail Xavier é o grande ensaísta, uma inteligência rara na decodificação do cinema brasileiro. Ítala Nandi é a consagrada atriz, que vem desde o Cinema Novo e Cristina Amaral é uma das nossas maiores montadoras. Ponto.

Enfim, foi uma noite ecumênica, em que o Festival reafirmou suas posições progressistas, contra discriminações de gênero, raciais e outras quaisquer. O festival é inclusivo, assim como a arte é inclusiva. A direita pode estar em alta. Mas não entra pela porta da frente em certos ambientes. O cinematográfico é um deles. É majoritariamente progressista. A noite foi conduzida por Leticia Sabatella e Chico Diaz. Entre a plateia houve um ou outro “Lula Livre” e até mesmo um já démodé “Fora Temer”. Ele ainda está lá no Palácio do Planalto?

Por fim, rolaram os filmes, o curta Imaginário, de Cristiano Burlan, e o longa Domingo, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa.

No curta, Burlan usa imagens encontradas na Cinemateca Suíça e falas que marcam momentos trágicos do País. Desses materiais díspares, nasce o filme.

Uma dessas falas é conhecida: quando se declara que Jango havia abandonado o Brasil e portanto declarava-se vaga a presidência, consumando o golpe de 1964. Na verdade, Jango ainda estava em território nacional. A outra quando Lacerda grita no rádio contra o general Aragão, chamando-o de “incestuoso” e dizendo que iria matá-lo com seu revólver. Outra cena famosa do golpe civil-militar e parte do seu anedotário. Impressiona a fala do deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura, que se intensifica contra imagens que nenhuma relação têm com seu contexto.  

A assimetria entre imagens e falas produz uma sensação de desconforto. Talvez seja a intenção do diretor. Desconforto é a sensação nossa de cada dia num mundo em que imagens e falas parecem não mais se harmonizar.

O longa Domingo é um filme coral, com diversos papéis proeminentes sem que haja um protagonista claro. Passa-se no dia da primeira posse de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente, dia 1º de janeiro de 2003, recebendo a faixa de Fernando Henrique Cardoso.

Com esse pano de fundo histórico em aberto, filtrando-se pela narração de rádios e telas de TV, uma família gaúcha reúne-se na casa de campo para um churrasco.

A casa da fazenda é estupenda, embora mal conservada. Parentes moram lá, mas a propriedade pertence à implacável matriarca, Laura (Itala Nandi), que tenta manter o controle sobre todos embora obviamente o poder lhe escape entre os dedos.

O filme é muito falado e a câmera desliza entre os personagens com inúmeros planos sequência. Há a família dos proprietários e há os empregados da fazenda. De forma sinuosa, entrevê-se uma dialética tipo Casa Grande & Senzala, que já existia no filme anterior de Barbosa, não por acaso chamado Casa Grande. Na entrevista, Fellipe Barbosa disse ter sido criticado quando lançou Casa Grande por seu desfecho visto por muitos como conciliatório. “Talvez por isso não haja conciliação em Domingo”, diz.

De qualquer forma, o projeto tem de ser partilhado não apenas com a diretora Clara Linhart, mas, em especial com o roteirista Lucaz Paraíso, de quem veio a ideia. Um projeto surgido em 2005, que recebeu inúmeros tratamentos até por fim ser realizado. O longa estreou na competição da Mostra Horizontes no recém-encerrado Festival de Veneza. “Ninguém imaginava que, quando lançássemos o filme, o Lula estaria preso”, diz o diretor.

É essa a capacidade da arte. De ser resssignificada e reprocessado segundo sua atualidade ou defasagem em relação aos acontecimentos históricos.

Em todo caso, como foi filmada agora, ela já recebe emanações de um Brasil que nunca mais foi o mesmo, apesar de agora ter dado tantos passos para trás, após o golpe parlamentar de 2016. Retrocessos, mas que não anulam uma determinada toma de consciência das chamadas classes “subalternas” em relação a seus direitos e que está em outros filmes como Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert.

Em Domingo, há essa tensão mais evidente entre patrões e empregados, no lugar da tradicional submissão, ainda mais típica nas regiões rurais, do mando e dependência.

Em suas algumas imprecisões e indecisões, Domingo é um filme muito estimulante sobre um Brasil que muda, apesar de tudo. O fato de não ser conciliatório o melhora e muito. O país precisa de diálogo, sem dúvida, mas não pode retroceder sobre direitos conquistados.

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