Brasília 2018. New Life, ou como o Brasil desmoraliza o surrealismo
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Brasília 2018. New Life, ou como o Brasil desmoraliza o surrealismo

Conflitos de fronteira em Los Silêncios e o vale tudo da sociedade brasileira atual em New Life são os novos competidores do Festival de Brasília

Luiz Zanin Oricchio

17 Setembro 2018 | 11h55

BRASÍLIA

Mais dois competidores da mostra de longa-metragem bateram na tela do Cine Brasília, Los Silencios e New Life S/A.

Los Silencios, de Beatriz Seigner, é ambientado na zona fronteiriça entre Brasil, Colômbia e Peru. Há uma mulher colombiana com os filhos, que tenta obter asilo no Brasil. A família foi vitimada pela guerra civil e o marido (Enrique Diaz) desapareceu, deve estar morto.

O longa mescla realismo político a uma aura um tanto fantástica, à semelhança dos filmes de Apichatpong, em que vivos convivem com mortos com a maior naturalidade. Os mistérios da floresta contribuem para a construção de um clima bastante interessante, mas que não chega a impactar de todo, a não ser em algumas cenas.

New Life S/A, de André Carvalheira, tenta metaforizar os podres do Brasil no empreendimento imobiliário que dá nome ao filme. Claro, tinha de ser um nome em inglês, pois qualquer nome nacional a classe média alta acha brega. Os operários da construção estão com os salários atrasados. A estrutura da obra foi alterada para barateá-la. Há uma favela instalada em frente ao futuro condomínio de alto padrão, que, aliás, está sendo edificado em área de proteção ambiental. Tudo errado. Tudo Brasil.

Dr. Rubens (Murilo Grossi) é o proprietário e promove uma festinha reunindo poderes da República, gente do Legislativo e do Judiciário, cujos favores necessita para aprovar a planta da obra. Todos são corruptos, corruptíveis ou corruptores. Brasil, mais uma vez.

Para movimentar a trama, cria-se um personagem de exceção, o arquiteto Augusto, genro de Rubens, e que mostra escrúpulos de consciência. Pelo menos até a página 5, o que já é alguma coisa. Ele se preocupa com coisas que, para o sogro, são completamente dispensáveis, como licença ambiental, indenização à família de um trabalhador morto, cuidados na remoção do pessoal da favela, etc.

New Life escancara a brutalidade da sociedade brasileira: a corrupção generalizada, o desprezo pelos pobres, o culto à riqueza e ao sucesso a qualquer preço, a violência, amor às armas, etc. Tudo isso que a gente vê por aí e causa náuseas nos mais sensíveis.

A trama ficcional parece tão presa à realidade que, por paradoxo, se enfraquece. A construção de roteiro é demonstrativa e a filmagem adota tom pop e artificial – embora isso talvez seja mesmo a intenção do diretor.  “Gosto de Buñuel e esta é uma de minhas referências”,  disse o diretor. Acontece que quando o real torna-se surreal, isso coloca dificuldades para a ficção. “Mensagem”: estamos ferrados. E mal pagos. Mas isso já sabemos.

Curtas

Uma boa seleção de curtas, até agora

Boca de Loba, de Bárbara Cabeças, usa os subterrâneos de Fortaleza para falar, de modo alegórico tanto da discriminação quanto da potência transgênero.

Kairo, de Fábio Rodrigues, mostra como uma assistente social se aproxima de um garoto para dar-lhe uma triste notícia. Ecos da violência da metrópole.

Liberdade, de Pedro Nishi e Vinícius Silva, mostra o antigo bairro paulistano, antes habitado pela colônia japonesa e agora abrigando refugiados africanos. Semi documental, semi ficcional.

Sempre Verei Cores em seu Cinza, de Anabela Roque, acompanha performances de denúncia ao descaso com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, alvo, como todas as instituições de caráter público no Brasil, de desmonte sistemático.

“Excelências”

Atração da mostra paralela Onde Estamos e para Onde Vamos (só faltou o Quem somos?), Excelentíssimos, de Douglas Duarte, propõe ao espectador uma prova de estômago forte ao longo dos seus 152 minutos. Quase três horas para reviver o processo de impeachment de Dilma pelo olhar, e fala, dos “nossos” parlamentares.

Esse processo cumulativo de revisão daquilo que se conhece produz uma estranha sensação no espectador. Em particular, ao relembrar esse exótico percurso de destituição da presidente, um processo teatral cujo desfecho todos já conheciam. Causa mal-estar, reaviva revoltas (as manifestações do público se fizeram ouvir durante toda a sessão no Cine Brasília), mas, a par do sofrimento, revela-se útil.

Por exemplo, quando se comprova que todos eles – todos – sabiam muito bem o que estavam fazendo. O deputado Carlos Marun, Ministro Chefe da Secretaria de Governo de Michel Temer, por exemplo, dirige-se à câmera e admite sem maiores problemas que “se Dilma tivesse roubado um picolé, eu teria votado pelo impeachment.”

Quer dizer, as tais pedaladas fiscais foram mero pretexto para o golpe parlamentar. O que todos nós sabíamos, sabemos e saberemos, mas é sempre útil ver admitido por seus promotores.

Para registro da História.