Brasília 2018. Nenhum homem é uma ilha
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Brasília 2018. Nenhum homem é uma ilha

Novo filme da dupla Ary Rosa & Glenda Nicácio, Ilha, conta a história do bandido que sequestra cineasta para que este filme sua vida

Luiz Zanin Oricchio

21 Setembro 2018 | 10h56

BRASÍLIA

Confesso que tive sensações contraditórias  ao ver Ilha, o novo filme da dupla Glenda Nicácio & Ary Rosa. Ano passado eles encantaram Brasília com o frescor de Café com Canela, ambientado no Recôncavo da Bahia, com suas histórias singelas, de vivências populares, cheias de afeto.

Talvez tenha sido a expectativa, mas demorei a entrar na metalinguagem proposta por Ilha, proposta sem dúvida mais ambiciosa. Trata-se de um pequeno marginal que sequestra um famoso cineasta baiano para que este filme sua vida. Os planos iniciais, com o sequestrado encapuzado e resistindo a ameaças para aceitar o “job”, parecem não acabar nunca. A história não deslancha. É um mau começo.

Também achei um pouco afetado, para não dizer óbvio, o uso de metáforas do tipo “ninguém sai desta ilha”. Ou que uma mulher, cheia de mazelas, mas também portadora de qualidades advindas de suas raízes, se chame “Brasil”. Parece lícito, e quase obrigatório, incorporar sob a forma metafórica o absurdo em que o país se meteu nos últimos tempos. Mas entendo que isso precisa ser feito com mais sutileza – e, portanto, com maior eficácia simbólica.

No entanto, ao longo do percurso, reencontrei a melhor mão da dupla de cineastas – o olhar para a cor local sem qualquer traço de folclore; a ternura com que retrata as pessoas do povo; a paciência com cenas lentas e que adensam a atmosfera da trama. Por exemplo, a sequência em que um dos protagonistas interpreta, de modo amadorístico e emocionante, a canção Clube da Esquina nº 2, de Milton Nascimento, rima com a interpretação de João Valentão, de Caymmi, em Café com Canela.

Mas este é apenas um exemplo. Fato é que, da metade para o fim, reencontra-se a fluidez perdida, embora esta, de vez em quando, ainda continue refém do excesso de compromissos assumidos pelo filme em seu projeto. Ponto alto do filme é a cena de amor gay, filmada apenas pelos pés dos personagens. Mais que mero exercício estético, é prova de discrição e coragem em assumir, esteticamente, o “novo normal” pelo qual se fazem as lutas identitárias.

Mais conteúdo sobre:

Festival de Cinema de Brasília