Brasília 2018. Anatomia do filme que não houve
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Brasília 2018. Anatomia do filme que não houve

Em O Outro Lado da Memória, André Luiz Oliveira trata da sua tentativa frustrada de adaptar para o cinema Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro

Luiz Zanin Oricchio

20 Setembro 2018 | 09h31

BRASÍLIA

Hoje gostaria de começar falando de um filme da Mostra Brasília e da minha perplexidade com o fato de ele não estar na mostra competitiva nacional. Trata-se do belíssimo e forte O Outro Lado da Memória, de André Luiz Oliveira.

André é um baiano radicado há muito em Brasília. É autor de um dos filmes mais conhecidos do cinema dito “marginal”, Meteorango Kid, Herói Intergalático, citado até na música Cinema Novo, de Caetano Veloso. Nos anos 1990, ganhou um Festival de Brasília com seu Loucos Por Cinema, uma exceção de qualidade e invenção em época de penúria cinematográfica.

Pois bem, um belo dia André resolve partir para um projeto ambicioso, gigantesco mesmo, a adaptação do livro mais importante de João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro, um épico. Na ocasião, tive oportunidade de entrevistá-lo para o Estadão sobre o projeto. Falei também com o produtor Márcio Curi, já falecido, que estava formatando as, digamos assim, condições materiais da obra. De resto, o projeto foi notícia nos principais segundos cadernos do país. Porque muito se espera de André Luiz Oliveira e, sobretudo, porque Ubaldo, com sua obra literária e presença na imprensa como cronista, era conhecido de todos e admirado por muitos. Sua obra já rendera um clássico do cinema, Sargento Getúlio, dirigido por Hermano Penna.

Pois bem, o projeto de Viva o Povo Brasileiro começou a ser filmado em grande estilo na Bahia. Vemos entrevistas com figurinistas e diretores de arte, que falam do capricho no trabalho e da dificuldade em fazer um filme de época. Fala-se dos rigorosos ensaios dos atores, e etc.

Enfim, havia lá algo de grande sendo construído, como um gigantesco navio em seu estaleiro. Até que um dia tudo parou e o projeto morreu. Naturalmente faltou grana, como quase sempre acontece quando se tem uma ideia ambiciosa no Brasil. E tudo poderia ter ficado por aí mesmo, como mais um projeto bonito e naufragado num país de projetos naufragados.

Então André Luiz resolveu fazer esse making of de um filme que não houve. E transformar a frustração pessoal em densa reflexão sobre o Brasil, o país do eterno recomeço, das promessas que não se cumprem, da incapacidade em formular utopias e pensar o futuro. Em poucas palavras, o Brasil que hoje temos e miramos com certo espanto, como se suas aberrações tivessem saído do nada.

Pois bem, o que O Outro Lado da Memória nos diz é que o Brasil é resultado de um paciente trabalho de desconstrução de si mesmo, com a constante atualização de estruturas injustas que vêm da escravidão, de relações de clientelismo e mandonismo, de uma das piores distribuições de renda do mundo e a incapacidade histórica de suas “elites” em pensar de maneira democrática. No Brasil, democracia é apenas uma palavra e vive na boca das personalidades mais autoritárias.

“Um país que não tem dirigentes, mas donos”, como diz um personagem de O Outro Lado da Memória.