Brasília 2018.  A noite das mulheres
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Brasília 2018. A noite das mulheres

O programa contou com o longa A Sombra do Pai, de Gabriela Amaral Almeida (SP), Guaxuma, de Nara Normande (PE), e Plano Controle, de Juliana Antunes (MG).

Luiz Zanin Oricchio

21 Setembro 2018 | 13h43

 

Com três filmes dirigidos por mulheres, Brasília teve ontem sua noite mais feminina e feminista. O programa contou com o longa A Sombra do Pai, de Gabriela Amaral Almeida (SP), Guaxuma, de Nara Normande (PE), e Plano Controle, de Juliana Antunes (MG).

Gabriela já é conhecida do público pelo grande sucesso do curta A Mão que Afaga, mas também pelo longa O Animal Cordial. Em A Sombra do Pai dialoga abertamente com o gênero fantástico e terror, embora sua referência maior, segundo disse no debate, seja o espanhol O Espírito da Colmeia, de Victor Erice.

De fato, a história, entre suas muitas entradas, fala do contato de uma menina, Dalva (Nina Medeiros), com a morte. Ela vive com o pai viúvo Jorge (Julio Machado) e com a tia (Juliana Paes). Quando a tia se casa, Dalva é obrigada a tornar-se a “mulher da casa”, embora seja ainda uma criança. O pai está absorvido pelo mundo do trabalho (pedreiro em construção civil), foi ferido num acidente, perdeu seu melhor amigo (suicídio? Acidente?) e não tem como assumir a casa.

Há também o luto mal feito por uma mãe morta de maneira precoce. E um ambiente de magia cerca a existência da menina e da tia.

Há nesse ponto uma entrada interessante para a história. De acordo com a diretora, existe um conflito de ideias que move a trama. De um lado, o pai, incapaz de realizar o luto, e afundado numa morbidez materialista – tudo para ele é podridão, desencanto, finitude sem remissão. Para a tia (e a menina), o mundo é mágico, digamos assim. É possível tanto sonhar com um santo que trará o príncipe encantado para a solteirona, quanto buscar a amada mãe no mundo das trevas e trazê-la de volta à vida.

Interessante como premissa narrativa, falta à essa alternativa uma certa dialética, que consistiria na humanização do mundo do trabalho através de um materialismo menos mecânico. Então a história poderia tomar outro rumo que não o do horror absoluto ou a redenção imaginária.

No fundo, é uma história de amor, do luto impossível do pai e da filha pela mulher morta. E, em paralelo a esse tema, a crueldade do mundo do trabalho, em uma de suas versões mais físicas e arriscadas – a da construção civil. Por sorte, o cinema brasileiro tem se aproximado da temática laboral, em filmes como Trabalhar Cansa e Arábia (aliás, vencedor do 50º Festival de Brasília).

Guaxuma. Esta é uma animação documental, narrada em primeira pessoa, que lembra a infância da cineasta numa praia de Alagoas. É um filme artesanal, feito com areia, papel e, sobretudo, muita emoção. Em especial, ao lembrar de sua amiga inseparável da infância, Tayra, que teve morte prematura. Um dos mais lindos trabalhos de animação surgidos nos últimos tempos no Brasil.

Plano Controle. É uma intervenção satírica da diretora, usando a linguagem da ficção científica. Marcela vê que seu plano de celular inclui teletransporte para várias cidades do mundo. Desejosa de conhecer Nova York, acessa o serviço. Mas seu plano de dados prepara-lhe uma surpresa. Em tom humorístico, a diretora do longa Baronesa toca temas como o impeachment de Dilma, entre outros desacertos da sociedade brasileira atual. O filme é desopilante. Rindo também se critica.

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