Brasília 2017. Uma doce rapsódia baiana encanta o Cine Brasília
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Brasília 2017. Uma doce rapsódia baiana encanta o Cine Brasília

Café com Canela, filme que louva a vida com todas as suas imperfeições, também é imperfeito, porém cheio de vitalidade.

Luiz Zanin Oricchio

19 de setembro de 2017 | 11h07

  BRASÍLIA – Aqui em Brasília fala-se muito em “afeto”, mas, como acontece com frequência, fala-se muito daquilo que não se encontra de verdade em nossa sociedade pós-industrial. Café com Canela é, de fato, um “filme de afeto”, uma espécie de doce rapsódia baiana ambientada no Recôncavo. Em particular, na cidade de Cachoeira, mas também São Félix e Muritiba, onde um grupo de personagens nos faz sonhar com aquela Bahia mítica, dos relacionamentos calorosos, da bondade, da graça. Esses bons fluidos tocaram a plateia do Cine Brasília, que agradecida, ovacionou o longa de Ary Rosa e Glenda Nicácio, e já o credita como um dos favoritos ao Prêmio do Público.  Claro, o festival tem muito chão ainda pela frente e pode apresentar outros títulos que disputem a primazia.

Mas, até agora, Café com Canela sai na frente da preferência popular. Na trama, em meio à vida cotidiana, insinua-se uma antiga relação. A ex-professora Margarida (Valdineia Soriano) vive isolada em São Félix, abatida por uma perda que não consegue assimilar. Sua ex-aluna Violeta (Aline Brunne) casou-se, vive com o marido e filhos, é feliz e cheia de energia. Um dia reconhece a antiga mestra e decide reatar o relacionamento.

O filme funciona com base em pequenos relacionamentos e encontros. Tem seus toques de humor e alegria e tristeza – como acontece na vida cotidiana. Mas exibe aquela proximidade entre as gentes que se associa a um Brasil mais humano, menos mecanizado e cruel como o atual, nas grandes cidades. Aqui, pelo contrário, temos uma pequena comunidade, com laços de afetividade muito fortes, e cuja base de tradição é “afro-barroca”, como definem seus diretores. Que, aliás, são mineiros, fizeram faculdade no Recôncavo e se apaixonaram pela região. Todos os protagonistas são interpretados por atores e atrizes afrodescendentes.

Como curiosidade, vemos Babu Santana (dos filmes de Ugo Giorgetti, Mundo Cão e Tim Maia) em seu primeiro personagem gay, o delicado médico Dr. Ivan, que vive com um homem mais velho, Adolfo, um ex-agente de viagens. Os diretores, em seu longa de estreia, optam por uma narrativa feita de tempos longos. O começo é um tanto precário e simula uma gravação em VHS. Esse início tem função na narrativa, mas, como se alonga demais, esta demora a engrenar. Mas logo depois imergimos no cotidiano dos personagens e dele não nos desgarramos mais.

É, como se disse, um verdadeiro filme de afetos, em que as demonstrações de emoção nos parecem de fato calorosas e plenas de sentido. Algumas cenas, como a neta cuidando da avó enferma, ou a ex-aluna tentando salvar sua antiga professora de um luto sem remissão ficam na memória. Assim como o comovente ato de uma mãe que, por fim, desmonta o quarto do filho morto. Pode-se gostar mais ou menos desta ou daquela sequência. Mas é mesmo o conjunto que se infiltra em nosso imaginário de maneira concreta. E nos faz pensar no país que poderíamos ter e não neste que de fato temos.

Café com Canela, filme que louva a vida com todas as suas imperfeições, também é imperfeito, porém cheio de vitalidade.

Curta. As Melhores Noites de Veroni, de Ulisses Arthur, tem seu interesse. O diretor o apresentou e disse que era o primeiro filme de Alagoas no Festival de Brasília, depois de 32 anos. Conta a história da mulher de um caminhoneiro, que encontra no canto uma forma de expandir seu mundo diminuto. Tem bons momentos e toques de originalidade, porém seu desfecho muito brusco deixa o filme no ar.

Mostra Brasília. Ainda é cedo para dizer algo mais geral sobre a mostra dedicada aos filmes locais. Os primeiros curtas não deixaram grande impressão. A não ser Tekoha – o Som da Terra, que estava indo muito bem até ser interrompido por problemas técnicos. Será reapresentado. Promete.

Debates. Depois do tsunami de Vazante, os debates aquietaram-se. O de Pendular foi um dos mais tediosos que tenho visto nos últimos anos.

Outros debates. Hoje à tarde modero a mesa “A crítica e os desafios dos novos formatos no universo digital”. Estarão na mesa os colegas brasileiros Neusa Barbosa, Camila Vieira, Paulo Henrique Silva, Adriano Garret e o francês Quentin Papapietro, dos Cahiers du Cinéma. A pauta proposta é a seguinte. Transcrevo: “O debate reunirá críticos e críticas de cinema para tratar de temas que atualizam a atividade da crítica jornalística num cenário em constante mutação. Se os sites e blogs enfrentaram dificuldades no início da internet, hoje o exercício da crítica aventura-se em meios que até pouco tempo eram lugar do entretenimento como os canais de YouTube. A mesa abordará também a crítica sobre séries exibidas pelos serviços de streaming e como as entidades de críticos posicionam-se frente aos novos desafios.

Quem estiver em Brasília e tiver interesse no assunto está convidado. O bate-papo será às 14h, no Salão Juca Chaves do Hotel Meliá, o mesmo onde estão sendo realizados os debates sobre os filmes.

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