Brasília 2017. A longa oscilação de ‘Pendular’
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Brasília 2017. A longa oscilação de ‘Pendular’

O segundo longa-metragem de Júlia Murat concorre em Brasilia tendo por foco um casal de artistas que divide seu espaço num galpão industrial abandonado

Luiz Zanin Oricchio

18 de setembro de 2017 | 10h31

BRASÍLIA – Ontem, no palco do Cine Brasília, ao apresentar seu filme, Pendular, a diretora Julia Murat falou do momento político brasileiro. E disse desejar um tempo em que se possa falar de afetos sem se sentir convocado por questões urgentes.

“Afeto”, como se sabe, é um substantivo mágico da nova cinematografia, assim como os adjetivos “potente”, “lacunar” etc. Praticamente não se pode falar (ou escrever) sem usá-los. 

E, de fato, Pendular, premiado pela crítica internacional (Fipresci) em Berlim trata da relação íntima de um casal de artistas (Raquel Karro, Rodrigo Bolzan). Eles se mudam para um galpão industrial abandonado e dividem o espaço em dois. Metade para o ateliê dele, metade para o estúdio de danças dela.

Esse pêndulo amoroso oscila em câmera lenta e percorre as questões colocadas pelos casais jovens, que vão das dificuldades de afirmação profissional (e estética, neste caso particular), o desejo (ou não) ter filhos (ou não), o sexo, etc. Pode ser visto como uma longa DR. O roteiro é escrito pela própria Julia e seu marido, Matias Mariani.

Há um trabalho de câmera interessante na maneira como escolhe “ver” os corpos e o espaço físico do galpão transformado em ateliê artístico. Por outro lado, o insulamento dos personagens em si mesmos tem algo de claustrofóbico.

A rua não se vê senão em momentos pontuais e, ao que parece, apenas para reafirmar o encapsulamento amoroso da dupla. A montagem se dá em tempos longos, que tendem à monotonia (mas esta é uma impressão subjetiva).

Quanto à urgência. Não há por que se desculpar. Não há nada mais urgente para casais, apaixonados e/ou em litígio do que as do próprio casal. Mas, de fato, o filme chega em momento tão conturbado que seria lícito esperar algo mais engajado, mais a contrapelo de questões contemporâneas e prementes. Soa, nesse momento, como um exercício de esplêndido isolamento.

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