Brasileiras
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Damas do Samba, de Susanna Lira, e Cativas - Presas pelo Coração, de Joanna Nin, são dois excelentes documentários, feitos por mulheres, sobre mulheres, e destinados a todos nós

Luiz Zanin Oricchio

02 Outubro 2015 | 18h38

As Damas do Samba

Dona Ivone Lara

Dona Ivone Lara

Muita gente já acusou de machista o ambiente do samba. Susanna Lira, em seu filme, procura mostrar não apenas que a mulher tem vez como é elemento imprescindível na nossa mais importante manifestação musical. As Damas do Samba mescla um registro a princípio histórico e didático a outro, mais poético, para mostrar como a presença feminina se dá desde as origens, a começar pela mitológica Tia Ciata, em cujo quintal o ritmo teria nascido, ou se ambientado em terras cariocas, no princípio do século passado.

Em hábil montagem, vão passando pela tela as mulheres que marcaram o samba, das indefectíveis Dona Zica e Dona Neuma, da Mangueira, a cantoras e compositoras como Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Alcione. Mas também inclui passistas, aderecistas, diretoras de barracão, enfim, todas as que fazem e constroem essa ópera complexa que um desfile de Escola de Samba, da sambista que sai na ala das baianas à porta-bandeira. A mais famosa delas, Vilma da Portela, dá seu depoimento no filme.

O filme tem um eixo – garantido pela antropóloga Helena Theodoro, que lhe empresta consultoria – em torno do qual se distribuem momentos pontuais de alumbramento. Destaque para dois, em especial, quando Beth Carvalho “incorpora’ Clementina de Jesus e canta com sua voz áspera e afro; o outro, em que Dona Ivone Lara canta, à capella, sua música Sonho Meu. Esse longo plano, em close, da artista, talvez seja o mais emocionante do ano, no cinema brasileiro. Só ele já vale o filme.

Que, no entanto, tem muito mais. Construído com ritmo, amor e senso estético, Damas do Samba é uma porta de entrada original a essa grande arte popular. Ao que o Brasil tem de melhor, aliás. Só não vê quem é ruim da cabeça ou doente do pé.

Cativas

 

cativas

Em Cativas, de Joana Nin, veem-se as filas de mulheres diante dos presídios masculinos nos dias de visita. Uma delas comenta: “Na cadeia das meninas não se via nenhum homem, no máximo uns dois ou três gatos pingados”. O fato é conhecido. Mulheres mantêm-se fiéis aos seus homens quando eles vão presos. Quando são as mulheres que vão para a cadeia, em geral são abandonadas pelos companheiros.

Em Cativas, Joana Nin escolhe um traço em particular nessa relação. Registra o caso de mulheres ligadas afetivamente a homens que cumprem penas. Daí o título completo do filme: Cativas – Presas pelo Coração. E o tom empregado nesse registro, o do afeto.

Numa das primeiras cenas, uma dessas mulheres vai a uma casa de vestidos de noiva. Quer comprar um bem bonito, pois vai se casar, na prisão, com um homem condenado a longa pena. Há outros casos, alguns bem impressionantes. Por exemplo, a da personagem que conta ter se apaixonado por um garoto delinquente de 14 anos. Na época, ela tinha trinta, era casada e mãe de dois filhos. “Abandonei tudo por ele”. Hoje, o rapaz está preso e a mulher espera por ele. No extremo oposto, há a garota de 21 anos que vai se encontrar com o namorado em sua primeira visita íntima.

Em tempos de tanto pragmatismo, como entender esse tipo de romantismo radical? A diretora não procura compreender racionalmente a questão. Mesmo porque talvez não haja qualquer resposta racional e até mesmo porque, ao contrário do que se pensa, explicações racionais não respondem a tudo, no nebuloso campo do comportamento amoroso humano. De modo que esses envolvimentos se enquadram na categoria dos afetos – que possuem lógica própria.

Nesse ambiente amoroso, marcado pela separação e encontros raros, os objetos-fetiches ocupam posição privilegiada. Lembranças, fotos, pequenos objetos evocam a presença do amado distante. Mas são, sobretudo, as cartas que ocupam posição privilegiada nesse discurso amoroso fragmentado. É curioso. Em tempos de internet, de mensagens rápidas por email, MSN e WhatsApp, o gênero epistolar romântico sobrevive nesses textos trocados entre detentos e suas mulheres. E as cartas não vêm “a seco”. Ao lado dos textos apaixonados, trocando juras e fazendo projetos para o futuro, há traços coloridos e desenhos elaborados. São objetos a serem guardados. E, de fato, as cartas são entesouradas, como relíquias desses amores difíceis.