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Brasil x Uruguai: um jogo e suas circunstâncias

Luiz Zanin Oricchio

10 de julho de 2007 | 09h09

Um jogo é ele e mais a sua circunstância, como diria Ortega y Gasset, famoso ponta-esquerda da seleção espanhola. Assim, este Brasil e Uruguai não vale apenas a vaga na final da Copa América: otras cositas más estão em jogo. As duas seleções começaram mal. O Brasil perdeu para o México e o Uruguai, para o fraco Peru. Ambos se reergueram. O Uruguai, desclassificando a também frágil Venezuela. O Brasil, abusando de um Chile de ressaca, um time com cefaléia, garganta seca e equilíbrio precário.

Para que servirá o jogo de hoje, além de indicar um finalista e um derrotado? Para o Uruguai talvez mostrar que deu fim a uma longa decadência e pode começar a curva ascendente no cenário mundial. Caso vença o Brasil, haverá quem dê razão a Dunga e à tese de que o futebol moderno pede três volantes e um meia como Júlio Baptista. Em caso de derrota, terá razão quem acha que essa formação descaracteriza a escola brasileira de jogar bola – se é que isso ainda existe.

Mas, enfim, para além dessas conseqüências mais imediatas, um jogo também é ele e a história que o cerca. Brasil x Uruguai nunca será uma disputa como outras por causa de um certo 16 de julho de 1950, quando os donos da casa já se consideravam campeões do mundo e os uruguaios mostraram que ninguém ganha de véspera. Nelson Rodrigues se referia à derrota por 2 a 1 como ‘uma tragédia pior que Canudos’, ou, numa variante, ‘a nossa Hiroshima’. Seu irmão, Mário Filho, escreveu a respeito, especulando sobre a suposta bofetada que o uruguaio Obdúlio Varela teria dado em Bigode, intimidando-o pelo resto da partida.

Paulo Perdigão, que, menino, fora levado ao jogo pelos pais, nunca pôde esquecê-lo. Muitos anos depois escreveu um livro notável, detalhista, chamado Anatomia de uma Derrota. Finaliza com um conto no qual um personagem inventa uma máquina do tempo para voltar àquela tarde fatídica e prevenir o goleiro Barbosa de que o Gigghia chutaria no seu canto baixo esquerdo. Mesmo assim não pôde evitar o gol; pelo contrário, acaba contribuindo para que ele aconteça.

Um uruguaio, Eduardo Galeano, em Futebol ao Sol e à Sombra, conta outro lado da história. Herói da conquista, o capitão Obdúlio Varela não se empolgou: ‘Foi casualidade’, disse aos repórteres. Passou a noite bebendo pelos bares do Rio, e, sem ser reconhecido, tentava confortar os inconsoláveis torcedores cariocas. Verdade? Mito? E que importa? Uma partida capaz de gerar tantas versões merece entrar para a eternidade.

Vinte anos depois, em 17 de junho de 1970, novas gerações se enfrentavam, agora na Copa do México. Mas 1950 continuava na memória dos brasileiros. Pelé evoca o menino de 9 anos que fôra, procurando animar o pai, Dondinho, na derrota em 1950. Carlos Alberto Torres se lembra da preocupação na descida para o vestiário, quando o jogo ainda estava 1 a 1. O fantasma do Maracanã, sempre ele, vagava por ali, no Jalisco. Só que desta vez o final foi feliz e o Brasil ganhou por 3 a 1, abrindo caminho para o tri.

Estas imagens do passado estarão hoje em campo, apimentando o jogo e honrando a aura que cerca essa disputa entre campeões do mundo? Ou será apenas uma partida entre profissionais corretos, colegas de campeonatos europeus, sem qualquer noção de que uma história mítica continua através deles, saibam disso ou não?

(Estadão, Caderno de Esportes, Coluna Boleiros, 10/7/07)

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