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Brasil em Tempo de Cinema

Luiz Zanin Oricchio

03 Maio 2007 | 15h27

Encontro sobre minha mesa as provas de Brasil em Tempo de Cinema, o livro clássico de Jean-Claude Bernardet que está sendo reeditado pela Cia das Letras como parte das comemorações dos 70 anos do autor.

Faz alguns anos, conversando com Jean-Claude, lhe disse que estava relendo o Brasil em Tempo de Cinema. Ele deu um sorriso irônico, bem dele, e disse: “Acho que não se sustenta mais, não é?”. Discordei. O livro parava em pé, ainda que, ao escrever sobre ele, fosse necessária a ressalva que se tratava de uma obra de 1967. No calor da hora, Jean-Claude analisava a novíssima produção brasileira, em especial aquela que se convencionou chamar de “Cinema Novo”. E defendia uma tese polêmica, a de que o cinema brasileiro era uma arte da classe média e dirigida a essa mesma classe.

Como diz Carlos Augusto Calil no posfácio da nova edição, hoje é muito fácil dizer usar essas palavras. Naquela época, em que os cineastas acreditavam fazer uma obra em nome do povo e para o povo, essa afirmação chegou a provocar revolta, e o mal-estar entre crítico e cineastas durou anos.

Além dessa idéia-eixo, Brasil em Tempo de Cinema era uma tentativa de estudar a produção brasileira em conjunto e não como se cada filme fosse uma entidade em si, uma mônada, isolada das demais. Essa tentativa de compreensão abrangente foi alvo de críticas e elas aparecem até mesmo no volume editado pela Civilização Brasileira nos anos 60. Paulo Emilio Sales Gomes, no prefácio, diz que não acredita em generalizações. Aliás, o próprio Jean Claude confessa que utiliza a expressão “classe média” sem defini-la com precisão. Esse grande livro de crítica é crítico em relação a si mesmo.

E essa talvez seja uma de suas qualidades mais estimulantes. Ainda mais quando se relembra que o dogmatismo era uma tendência marcante daquela época, muito mais que da nossa. Vale a leitura de cada linha, que não fosse por outro motivo, por este: Brasil em Tempo de Cinema é um vigoroso retrato daqueles anos febris, tão importantes para o cinema como para o País.