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Brasil dilacerado

Luiz Zanin Oricchio

01 de dezembro de 2006 | 13h12

Recebo e-mail de uma amiga comentando a minha cobertura do Festival de Brasília. No balanço, eu escrevi que os filmes representavam um “Brasil dilacerado”. E minha amiga (não digo o nome porque não tenho permissão para isso) comenta “esse recorte violento me parece que é uma representação construída por nós, brasileiros. Ao mesmo tempo, em nosso autoconceito, não nos consideramos um povo violento…”

Ela diz que foi assistir a um show de Guinga, o magnífico compositor e violonista, fala de outros músicos e de feitos do Brasil, como os prêmios internacionais de atletas e outros criadores, a nossa tecnologia em alguns domínios, etc e tal. E diz que essa constatação lhe “mobiliza um sentimento bom, e muito inusitado, em relação ao Brasil”. Finaliza lembrando a reação do psicanalista de origem italiana Contardo Caligaris que, ao chegar aqui muitos anos atrás, estranhou como os brasileiros detratavam o próprio país, uma atitude inusitada em qualquer lugar do mundo e que o levou a escrever um livro sobre o assunto.

Concordo com ela: há uma generalizada má-vontade em relação ao País, em especial em certos segmentos da sociedade. Mas, é engraçado, nunca ouvi um homem pobre falar mal do Brasil. Justamente os pobres, que teriam todos os motivos para isso, parece que não têm problema algum em serem brasileiros, muito pelo contrário. Podem até criticar, mas nunca com o fel do veneno desesperançado de quem se sente acima dos outros. Já da classe média para cima…é um pau só. Parece que moramos no pior lugar do mundo e estamos condenados a ser a escória da humanidade.

Bem, Nelson Rodrigues falava muito do famoso “complexo de vira-latas”, e acho que essa disposição de espírito descoberta há uns 50 e tantos anos atrás continua vigente. Existe mesmo sua reação contrária, que nos leva da depressão à euforia em segundos. De piores do mundo passamos a melhores, sem transição. Não sou eu quem vai decifrar essa insegurança, mas parece que ela reside em algum lugar entre a nossa auto-imagem (ruim) e o deslumbramento com que vemos o Outro – o estrangeiro, o “Primeiro Mundo” com que sonhamos, o sinhozinho em quem devemos nos espelhar. Tanta submissão às vezes nos leva à atitude oposta e então, momentaneamente, queremos afrontar aqueles que admiramos sem limites.

Ainda nos falta chegar a uma posição equilibrada, que não ignore a imensidão dos nossos problemas mas também não nos leve à depressão e ao autodesprezo. Tarefa gigantesca, talvez para gerações.

Quanto ao cinema, creio que ele é mesmo mais sensível ao que existe de negativo na sociedade. Talvez até mesmo por uma questão de origem de produção: feito com dinheiro público, o cinema se sentiria “obrigado”, eticamente, a devolver o investimento sob a forma simbólica de reflexão sobre os nossos problemas. Não acho errado, acredito na responsabilidade social da arte, embora isso tenha de partir do artista e não possa ser obrigatório. Mas, só para constar: havia em Brasília vários filmes que celebravam, digamos, o lado B do Brasil, algumas das nossas melhores características: a grande música (em Pixinguinha, de Thomaz Farkas) e a generosidade (em O Homem Livro, de Anna Azevedo, sobre o pedreiro altruísta cujo maior prazer na vida é ver uma pessoa se interessar por um dos livros que empresta ou cede – sim, de graça).

Quanto a mim, querida amiga, sou um brasileiro sem nenhum complexo de inferioridade. Adoro este país – que às vezes me maltrata, mas eu perdôo. Já morei fora e sei da falta que ele me faz.

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