Branca de Neve gótica, com tourada e flamenco
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Branca de Neve gótica, com tourada e flamenco

Luiz Zanin Oricchio

05 de julho de 2013 | 11h50

Já se sabe que os contos dos irmãos Grimm não são exatamente para crianças. Assustadores, encerram um subtexto psicanalítico visível. Bruno Betthelheim escreveu o clássico A Psicanálise dos Contos de Fadas justamente para mostrar as alusões sexuais e agressivas presentes em conteúdos de aparência inocentes.

Aliás, para falar a verdade, os tais conteúdos não são tão neutros assim. Mesmo sem arsenal psicanalítico disponível, podemos desconfiar de tramas que incluem feitiços, envenenamentos, devoração e mesmo canibalismo.

São elementos presentes nos contos e tocam o inconsciente das pessoas (e não apenas das crianças), por depurados que estejam como nos produtos Disney, o estúdio dos filmes dourados “para toda a família”.

O que o espanhol Pablo Berger faz com a história da menina perseguida pela madrasta má (Mirabel Verdú) é adensar-lhe o tom gótico e impregná-la de acentos e perfumes ibéricos. Ambientada a trama em Sevilha, o resultado da transposição de tempo e espaço revela-se estupendo. Mas, mesmo assim, pode-se perguntar por que Berger, na era do 3D, resolveu fazer um filme em preto e branco, e mudo. Diga o que disser, parece revelar um desejo de recuo a determinada etapa da técnica cinematográfica, em tese mais acolhedora para o tipo de história ser narrada. Foi o que também fez Michel Hazanavicius em O Artista, que venceu o Oscar, para surpresa geral.

Em sua versão do conto, Berger acrescenta elementos perturbadores. Se a história da menina órfã de mãe, da madrasta má, da maçã que adormece, etc já é inquietante em si, torna-se ainda mais densa se ambientada na Espanha do início do século 20, quando a arte da tauromaquia se encontra no ápice e os toureiros são os pop stars da época. Os movimentos da tourada e sua ritualística hipnótica são acompanhados pelo canto flamenco, já em si cheio de presságios, espasmo e beleza. Antonio Villalta (Daniel Giménez Cacho) é o maior desses toureiros, mas vacila ao dedicar mais atenção a certa senhora que aos chifres do miúra com o qual tinha encontro no centro da arena.

Há clara referência aí aos perigos do amor, ao feitiço do amor físico, com suas tentações e armadilhas. E também ao poderoso símbolo fálico depositado na figura da força animal e em seus atributos. O touro em si já é essa força bruta, a ser domada pela inteligência do homem e sua capa. Mas a perigosa graça da tourada está na possibilidade, remota que seja, do acidente, do touro tornado protagonista e ruína da festa.

O sexo perfura, destrói, pode aniquilar. Caberá à menina órfã de mãe e com o pai mutilado, todo um trabalho de exorcismo dessa sexualidade ameaçadora para que ela possa enfim reencontrá-la, de forma mais apaziguada, no fim da estrada. E, mesmo assim…Esse caminho inclui o encontro com os sete anões, que na história revisitada por Berger são seis, aludem a Goya e também se dedicam a um métier delicado.

Esse filme soturno e encantador é bom sinal para a Espanha. Na crise que o país atravessa, sem luz visível no fim do túnel, chega o momento de buscar forças em sua cultura riquíssima, capaz de absorver o mito antigo e fazê-lo dizer coisas novas. Branca de Neve,por soturno que seja, é sinal de vitalidade. Faz par interessante com A Bela que Dorme, de Marco Bellocchio, que, por coincidência, entra também em cartaz. Espanha e Itália são países à espera de um despertar.

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