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Braços Cruzados, Máquinas Paradas

Luiz Zanin Oricchio

15 de dezembro de 2008 | 10h24

Sai em DVD Braços Cruzados, Máquinas Paradas, de Roberto Gervitz e Sérgio Toledo (Videofilmes, R$ 45,90). Documentário histórico, em mais de um sentido. Primeiro, porque evoca um momento de ruptura na história recente brasileira, com a greve dos metalúrgicos de São Paulo e a campanha eleitoral do sindicato da categoria, que tentava tirar da direção os pelegos lá instalados desde o golpe de 1964. Segundo, porque, ao contrário de outros filmes do gênero, este procura não ser um ponto de vista do intelectual de classe média sobre os trabalhadores; pelo contrário, procura dar-lhes voz.

O que não quer dizer que o filme não tenha o seu ponto de vista, conforme esclarece Gervitz em entrevista: “Éramos contra a ditadura e favoráveis à Chapa 3, que fazia oposição à diretoria do sindicato.” Desse modo, as primeiras imagens são da época de Getúlio Vargas, cujo governo instituiu uma lei trabalhista inspirada na Carta del Lavoro do fascismo italiano. Essa legislação é vista como restritiva da organização sindical e favorável ao surgimento de “pelegos” – sindicalistas que defendem mais os interesses patronais que os dos supostos companheiros.

As imagens são em preto-e-branco, captadas por um craque, Aloysio Raulino, que também conta como foi fundamental a experiência de haver feito esse filme e vivido aquele momento. “Nós só existíamos para o filme; só pensávamos naquilo, com a consciência de que estávamos participando de um momento histórico único”, diz. O filme passa essa energia, esse envolvimento, essa de simpatia em relação aos personagens. A câmera alterna planos gerais das portas de fábrica com closes dos rostos dos trabalhadores, como se focalizasse a multidão e depois buscasse individualizar aquela luta. Tem a tonalidade emocional de um épico, embora evite sempre o tom chantagista, a emoção fácil, o uso sentimental da música. Tudo é muito comedido. E ajusta-se ao propósito de dar a voz a um grupo social até então “tutelado” pelos intelectuais de esquerda, postura típica do Cinema Novo como aponta Gervitz.

Em seu Cineastas e Imagens do Povo, Jean-Claude Bernardet nota a diferença. Filmes como Greve, de João Batista de Andrade, representariam o ponto de vista leninista aplicado ao cinema. Para Lenin (em Que Fazer?) a consciência revolucionária não nasce espontaneamente na classe operária. Ela tem de ser como que fecundada “pela consciência teórica do intelectual”. Este teria a última palavra. Seu saber, adquirido na universidade, teria de ser colocado “a serviço do povo”, para libertá-lo.

Em Braços Cruzados, a palavra é dada aos trabalhadores. Não há uma narrativa em off que explique o sentido do todo. Este sentido se forma na própria história que se desenrola diante dos olhos do espectador. Como escreve Bernardet: “Aqui (em ?Braços Cruzados, Máquinas Paradas?) o intelectual-cineasta se omite, tenta se tornar transparente, sendo apenas veículo que permite ao discurso operário manifestar-se.”

Por isso, em resposta à pergunta do entrevistador (Evaldo Mocarzel) sobre a sua subjetividade de artista, Gervitz responde: “Aquele não era o momento de expressar subjetividade; éramos apenas instrumentos do que acontecia, e que era maior do que nós. Não por acaso, eu e o Sérgio Toledo partimos para fazer ficção em nossos projetos seguintes.”

Há um momento do coletivo, quando o movimento da história é mais importante que a psicologia dos indivíduos. Era assim naquela época. O tempo da autoficção ainda estava por chegar.

(Cultura, 14/12/08)

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