Bolsonaro pagando mico em Davos
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Bolsonaro pagando mico em Davos

Luiz Zanin Oricchio

03 de setembro de 2020 | 19h53

Al Gore a Bolsonaro: “Não entendo o que isso quer dizer”

As cenas patéticas estão no documentário O Fórum e viralizaram nas redes sociais. Começam pelo pífio discurso do presidente brasileiro Jair Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, em 2019. Segue-se o encontro num coquetel com o ex-vice-presidente Al Gore, que, através de um intérprete, tenta puxar papo com Bolsonaro dizendo ser amigo de Alfredo Sirkis. Para ouvir como resposta a frase “Eu e Sirkis éramos inimigos durante a luta armada”. Gore, meio passado, diz que não sabia; se soubesse não teria falado. Expressa sua preocupação com a Amazônia e recebe como resposta a declaração de que “Desejamos explorar a Amazônia em parceria com os Estados Unidos”. Espantado, Al Gore diz não saber o que isso significa. E bate em retirada. Depois, vemos a cara  aborrecida do presidente ao ser abordado pela diretora do Greenpeace, Jennifer Morgan, que lhe entrega um cartão de visitas. Depois do encontro constrangedor, Jennifer cochicha, entre sorrisos, com uma amiga que lhe pergunta: “Como foi?”. Como se ela tivesse tentado conversar com um ser exótico, um alienígena, o que não está longe da verdade. Bolsonaro, em companhia do seu chanceler Ernesto Araújo, parecem mesmo peixes fora d’água naquele ambiente. Todos os evitam, quando possível. O próprio presidente do Fórum, Hans Schwab, tenta empurrar a apresentação da conferência de Bolsonaro a um colega, que não aceita o abacaxi. Em entrevista a um jornal brasileiro, o diretor do filme, o alemão Marcus Vetter, disse ainda ter cortado algumas cenas do presidente brasileiro por serem constrangedoras demais. Imaginem…

Toda essa sequência de gafes, malcriações e mediocridade concentram-se no final do filme. Mas é inevitável que falemos dela em primeiro lugar, ao ver que o Brasil foi tratado, no exterior, como a república bananeira em que de fato se converteu.

Vetter teve acesso aos bastidores do Fórum e segue de perto as edições de 2018 e 2019. O show de Bolsonaro foi nesta última.

Mas o interesse não se esgota aí. Sem grandes comentários em off, vamos acompanhando a montagem desse encontro de ricos e de como se arranjam para administrar o capitalismo global dentro do razoável. Muitos assuntos são discutidos e Hans Schwab age como mestre de cerimônias diplomático dessa reunião global de poderosos. Detalhista, estuda quem colocar ao lado de quem nos jantares e os presentes a serem dados a cada dignitário participante.

Pergunta a Angela Merkel se ela está pronta para entrar em cena e recebe a resposta: “Estou sempre pronta”.

Schwab coleciona sua cota de fracassos. Um deles quando promoveu o encontro entre Yasser Arafat, da Autoridade Palestina, e Shimon Peres, de Israel. Esperava-se que um acordo entre palestinos e israelenses nascesse lá, em Davos, o que seria um trunfo e tanto para o Fórum. Arafat deveria falar primeiro, mas alegando ter esquecido seu discurso no hotel, cedeu a vez a Peres. Este falou e Arafat ficou ouvindo, sem tomar qualquer providência para buscar o texto em seu quarto. Quando por fim o israelense terminou, Arafat tirou do bolso o texto, que sempre estivera com ele, e pronunciou um discurso incendiário, inviabilizando qualquer acordo. Chateado, Peres se retira, dizendo: “Vim preparado para um casamento e temos um divórcio”.

Já no Fórum de 2019, discutiu-se muito a questão ambiental. Foi-se o tempo em que ecologia era uma atividade de “chatos naturebas”, sem contato com a realidade. Hoje, e isso se vê em Davos, a palavra da hora passou a ser sustentabilidade. E ela não se opõe ao capital, aos negócios e lucros. Enquanto a Amazônia é desmatada no Brasil, os maiores empresários do mundo vão tomando consciência de que o planeta é um só e deve ser preservado. Que não seja por outro motivo porque, sem o planeta, não há negócios. Não existe, por enquanto, nenhuma possibilidade de levar a matriz da multinacional para Marte. Então temos de ficar por aqui mesmo e legar um planeta habitável para as próximas gerações. Todos já sabem disso, com algumas exceções.

Por esse motivo, uma das estrelas de Davos, talvez “a” estrela, tenha sido a ativista juvenil Greta Thunberg, adolescente sueca que costuma colocar os poderosos em saias justas ao responsabilizá-los pela devastação ambiental.

Essa invasão consentida de bastidores resulta num interessante raio-X do Fórum Econômico Mundial. Como diz a diretora do Greenpeace, a mesma que tentou em vão dialogar com Bolsonaro, as propostas de políticos e empresários naquele ambiente representam aquele 1% de mudanças necessárias para que 99% do status quo permaneçam da mesma forma. Lembra a famosa frase de um personagem de Tomasi di Lampedusa, em O Leopardo, ao dizer que era preciso mudar muita coisa para que tudo continuasse na mesma.

De qualquer forma, Davos é um ambiente em que se discutem a alta tecnologia e as fronteiras da inteligência artificial, novas parcerias econômicas, a preservação ambiental como condição sine qua non para o futuro, os desafiadores rearranjos de blocos econômicos, o surgimento de um player global com vocação hegemônica, como a China, e outras coisinhas mais. Compare-se isso ao folclórico discurso de Bolsonaro sobre um Brasil em luta contra a corrupção e esquerdistas, defensor de plataformas morais, da religião e dos bons costumes. Só para ver a extensão da defasagem brasileira em relação ao resto do mundo, o que vai sair bem caro no futuro.

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