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Bodas de Papel

Luiz Zanin Oricchio

16 de maio de 2008 | 18h39

O tom dominante de Bodas de Papel é meio antiquado. De certa forma, apesar da trama contemporânea, parece um tipo de cinema que se fazia há muitos anos atrás. Sente-se isso nos diálogos, no ritmo, no estilo da fotografia, até mesmo na maneira como o elenco se comporta diante daquilo que lhe é proposto. Vê-se o mesmo tom vetusto também na delicadeza de sentimentos que atravessa o filme. Quer dizer, “antiquado”, aqui, pode ser lido tanto num sentido negativo quanto positivo, dependendo do freguês.

Bodas de Papel é uma história de amor que não caminha até o fim, porque incerto é o destino. O par é formado por um arquiteto argentino (Dario Grandinetti) e uma bela mulher (Helena Ranaldi), de sorriso suave e um tanto triste. Nina (Helena) volta à fictícia Candeias para reinaugurar o hotel que pertencera ao avô (Sérgio Mamberti). O acaso faz com que conheça Miguel (Grandinetti) e os dois se apaixonam.

Tudo parece um pouco fora de eixo. Uma história de amor que não deveria existir em uma cidade que por pouco não foi alagada para a construção de uma hidrelétrica. Tudo paira no ar, como na suspensão de um sonho. O local é bucólico (filmado em Monte Alegre do Sul, que de fato é uma graça de cidade), e as relações humanas são cordiais, como aquelas que imaginamos ainda existir no interior. É tamanha a impressão de irrealidade que não nos surpreendemos com algumas reaparições que, em outras circunstâncias, seriam incongruentes.

Claro que o filme cria as próprias defesas contra essas improbabilidades. A principal delas, talvez, esteja na fala final de Mamberti, o avô que conta fábulas para a netinha. Convém não antecipar, mas há em suas palavras a defesa das antigas histórias, que, em tese, seriam as mesmas e contadas do mesmo jeito, pelos séculos dos séculos.

Não se trata aí de elogio à mesmice. Seria mais uma constatação do que existe de fundamental e de repetitivo por baixo de cada uma de nossas pequenas crônicas individuais. Uma grande história humana, a mesma desde o princípio e que nos faria a todos pertencer a essa família única. O amor intenso, porém infeliz, a perda, o luto fariam parte dessas constantes. Fosse o filme por aí e tudo bem, porque apostaria nesse dado de estrutura e na singeleza, que, se sabe, é bem difícil de atingir. No entanto, aqui essa simplicidade não se busca pela depuração e sim por seu contrário – pelo empilhamento de clichês. E então a busca se perde, o que causa pena.

(Caderno 2, 16/5/08)

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